Desmoralização

Muito provavelmente este discurso acabará por ser, para muitos, demasiado moralista, mas não me assusta parecer moralista: é o risco que se corre quando se resolve escrever sobre a desmoralização — e essa é que me assusta.

Há já muito que vivemos sob a ditadura do radicalismo, que se socorre da perversão para tratar os valores fundamentais com que edificámos a nossa sociedade. Existimos num mundo governado por terroristas, que se apelidam de verdadeiros defensores da liberdade enquanto defendem unicamente a libertinagem. Sucumbimos à intransigência e, ao contrário do que nos tentam vender, estamos hoje a construir um mundo sem valores, sem Humanidade — assente num relativismo cego, numa tolerância parcial, numa falsa justiça, subordinada a uma ideologia de poucos que, assumidamente, a todos é imposta.

Que mundo é este em que “aluguer de barrigas” pode soar a algo minimamente ético? Somos modernos. Evoluídos, progressistas, e essas noções todas — preservamos a liberdade, a igualdade, a fraternidade; preocupamo-nos com a condição feminina. Certamente. Mas equiparamos o corpo de uma mulher a uma incubadora — aceitamos que se possa usar o corpo de outra pessoa durante nove meses; menosprezamos o valor da maternidade; desconsideramos a Humanidade da natureza.

Acreditamos no desenvolvimento e queremos que acreditem em nós. Entretanto praticamos a perversão, desimportados com a inversão da moral, porque hoje querer ser mãe justifica que nos sirvamos de alguém, que significa como objecto. Ser mãe hoje é um direito — não uma sorte, não um milagre, não uma vocação.

E se é de direitos que isto que se trata, falemos de direitos. Defendemos direitos, seguramente — mas de quem? A esquerda, tão social e tão justa, continua a condenar invariavelmente os adversários pela defesa daqueles que não merecem ser defendidos; os privilegiados — mas, afinal, quem serve esta esquerda? Nesta e noutras questões, por mais que tentem manipular o olhar público com demagogias, a verdade é que o centro dos cuidados nunca são os mais frágeis. Defende-se o direito de adoptar, nunca o direito de ser adoptado. Aqui defendem- se os direitos dos que querem ser pais: o direito de usar o outro como meio para atingir o fim que alguns desejam, e defendem que merecem. Será que um corpo objectivado tem direitos? E o bem de consumo — a criança — é defendida? Esclarecemos tudo com a liberdade da própria barriga para aluguer. Assumir como fundamentação que exista alguém que se disponibiliza a viver a experiência da maternidade, com todas as transformações psicológicas e fisiológicas que o processo implica, obrigada a abdicar da criança com a qual desenvolveu uma ligação intransferível durante nove meses, exposta a diversas perturbações do foro emocional, é não deter a menor consideração pelo valor da vida humana e pela própria maternidade.

Vão alegar que não tenho fé na prodigalidade humana. Mas não sejamos ingénuos; nem nos façamos passar por crédulos — esta não é uma questão de generosidade, mas de cedência. Ninguém na posse de todas as suas capacidades reflexivas iria colocar o corpo a uso sem nenhuma espécie de retribuição (monetária ou favorativa). E como é que, em termos funcionais, isto seria fiscalizado? Estamos a promover outra espécie de prostituição: a justifica-la com a defesa da família; a mascará-la de progresso social.

O Conselho de Ética avaliou a questão; as autoridades europeias fizeram o mesmo: a resposta foi um não firme. Mas a vontade cega de compensar o atraso evolutivo do país fala mais alto. “Mas se as mulheres se disponibilizam a alugar as barrigas o que é que nós temos a ver com isto? O corpo é delas.” — o que se passa, nesta questão, como em tantas outras, é que ninguém se quer importar. Não nos queremos incomodar o que quer que seja que diga respeito ao nosso próximo; desculpamo-nos com a liberdade individual, quando na realidade só não queremos ter nada a ver com quem nos rodeia: não queremos que existam valores delimitativos, queremos justificar as más decisões com o livre-arbítrio, como se vivêssemos num mundo de particulares e não numa sociedade colectiva, em que somos todos responsáveis uns pelos outros.

E porque é que esta questão, de repente, se tornou pertinente? Num contexto como o do nosso país, envolvido numa crise económica e social que interfere com o dia-a-dia de tantos portugueses, torna-se urgente tratar de legislar o aluguer do corpo feminino para a gestação de uma criança que pertence a outra mãe. Ao mesmo tempo, a mesma espécie de governantes tão extremamente evoluídos e tão a favor da vida, negam-se a viabilizar medidas de apoio à natalidade, só porque são propostas por jogadores de outra equipa. Em vez de nos preocuparmos em reformar integralmente o sistema nacional de adopção, satifaz-nos validar meramente a adopção por casais homossexuais. Faz- nos sentido aprovar diversas medidas de punição pela violência contra animais mas deixa de interessar autorizar a punição daqueles que abandonam familiares idosos nos hospitais, que os exploram ou mal-tratam. Assumamos o domínio ideológico da agenda política nacional. Muito tristemente, Portugal continua a ser governado não em função das suas pessoas, mas dos interesses ideológicos do jogo político nacional. Aos poucos que se fazem orientar não pela cor partidária mas pelos valores próprios, chamam-lhes imprevisíveis, duvidáveis; porque o que é aceite e defendido pelos nosso governantes é a lealdade à família política — como se de futebol se tratasse: o fanatismo é tanto, que são incapazes de ceder, de olhar com respeito, com responsabilidade social, os que se lhes contrapõem.

Entristece-me que a missão social da política — a sua incumbência de servir os interesses do bem-comum; o dever de servir as pessoas, de as proteger, tantas vezes de si próprias, — esteja doente, a favor dos conveniências ideológicas de uns poucos falsos intelectuais, que querem obrigar o pais a fazer-se ao seu tamanho.

Por Beatriz Roque Antunes


1 comentários

Deixar um comentário