Argumentos a favor dos colégios

Estava eu muito sereno na minha existência enquanto aluno que não beneficia de contratos de associação, quando me deparo com a turbulência geral do crime que estão prestes a fazer: acabar com o financiamento aos colégios que não precisam dele! Então vamos lá ver (sem entrar em pormenores jurídicos e coisas enfadonhas como essas) o que argumentam as vítimas da inconstitucionalidade.

“Querem acabar com os colégios privados!”

Minhas senhoras e meus senhores, leiam este número com atenção, mas cuidado porque podem abismar-se com a monstruosidade e com o impacto brutal da reforma que o novo Governo-lá-para-o-raio-da-geringonça propõe: 3%. Exato, é só isso. É a percentagem de escolas privadas que têm os diachos dos contratos. Não, não é acabar com a escola privada, é acabar com os contratos assinados pelos colégios que já não necessitam do benefício do Estado, ou seja, nem esses 3% vão ser totalmente afetados.

“Os nossos filhos têm liberdade de escolher!”

Mas o que raio é que o término dos referidos contratos interfere com a liberdade de escolha? As escolas privadas existem (e ainda bem) e vão continuar a existir. Não é por vários colégios deixarem de ter rendimentos extra que lhes permitem ter condições ideais para a proliferação da genialidade quando há escolas públicas quase ao abandono (tanto pela quantidade de alunos como pelo aspeto das instalações) a menos de 10 kilómetros, que a criança não pode escolher onde se sente mais confortável. Isto caso possa fazer essa escolha, claro está. Pode-lhe faltar fundos para ingressar na escola, pode-lhe faltar números altos na pauta, pode-lhe inclusivamente faltar a religião ideal. É que um tipo de escola aceita tudo e tem posições baixas no ranking, outras aceitam só o que convém e ainda se queixam de falta de liberdade de escolha. Contraditório. “Os nossos meninos têm direito a uma escola de qualidade!”

Porque toda a gente sabe que os molengões dos funcionários públicos não sabem tomar conta da educação de seres jovens. Aliás, costumam até fugir dos problemas, não aceitando alunos com um contexto familiar problemático. Como se não bastasse, é senso comum que aluno de escola pública só vai entrar em Aplicações de Unhas de Gel na Universidade da Vida, porque só tem média para tal. Já na vida profissional não terá as bases fundamentais e a interação com a realidade que só um colégio proporciona. “Vamos fugir para o privado, não vá o meu filho levar uma “naifada” naquele zoológico, que só não é jardim porque não havia dinheiro de contratos de associação para comprar sementes!”

“Os professores vão ser todos despedidos!”

Aqui entramos num exercício de adivinhação em simultâneo com mau desempenho matemático, qual Maya a frequentar Matemática A no ensino público. Então se 30 alunos decidirem deslocar-se para um estabelecimento público próximo do seu anterior colégio, esses alunos continuarão a ser 30 na escola estatal. Surpreendidos? Há mais: o mesmo número de professores que dá aulas a 30 alunos é o mesmo numa e noutra realidade, por isso, se um professor ficar sem trabalho porque os meninos decidiram todos ir para a pública, esta última necessariamente terá de contratar mais professores para suprir as necessidades. Sim, é matemática, e para quem se vangloria por ter melhores resultados, este é um exercício muito acessível até para mim que frequento uma escola pública, quanto mais será para o brilhantismo colegial.

Eu não vejo o fim dos contratos de associação que o Estado assinou com alguns colégios como uma batalha de ensino público vs ensino privado. Acho correto haver mais oportunidades de escolha, e quem tem condições e vontade para ingressar num colégio terá o mesmo valor do que quem tenha escolhido o chamado ensino oficial. Assim como apoio este tipo de contratos numa situação em que a escola privada seja a única alternativa num raio geográfico considerável.

Vejo sim a tentativa de acabar com regalias desnecessárias que podem ser dadas a outras escolas mais carenciadas. Assim (e mais uma vez uso o exemplo que me é mais próximo: Gondomar), evita-se que uma escola privada a abarrotar de alunos e já com instalações e resultados de topo a nível nacional continue a beneficiar de dezenas (se não centenas) de milhares de euros por turma, enquanto existem simultaneamente outras escolas cada vez mais a vaziar de alunos que possuem instalações e resultados no mais baixo patamar nacional, tendo só ocasionalmente programas de assistência financeira. Espaço para acolher novos alunos não falta e aliás, enquanto o colégio tem dezenas de turmas de secundário, há públicas que nem a uma dezena chegam, tendo de esforçar-se por conseguir fazer duas com um total de 70 alunos. Resultado: turmas sobrelotadíssimas (70/2=35, sou do público mas ensinaram-me a fazer contas de dividir) e mais um fator de desfavorecimento para aquele instrumento infalível de avaliação de qualidade: os rankings. Mas a culpa está claramente na incompetência dos professores e na selvajaria dos alunos que não se conseguem governar estando quase 40 pessoas numa sala de reduzidas dimensões. Continuemos então por isso a esbanjar fundos em tecnologias de topo e aulas-extra nuns estabelecimentos e a “deixar andar” a escola pública que como sempre desenrascar-se-á. E só mais uma velha questão já nem tanto relacionada com os contratos em particular, mas com a instrução privativa no geral: para quando manifestações e entregas de 50 mil cartas ao Primeiro-Ministro e Presidente da República a pedir para acabar com a inflação de notas que tanto prejudica ano após ano os alunos do público?


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