Maria de Belém

Candidata à Presidência da República

Maria de Belém fala ao AGORA

No dia 21 de Janeiro, penúltimo dia da campanha eleitoral, Maria de Belém, a candidata à Presidência da República, aceitou falar com o AGORA.

O que diria a um jovem que está a ponderar não ir votar no dia 24?

MdB: “É evidente que quem não vai às urnas sujeita-se à escolha dos outros. É muito preocupante que deixemos decisões que são importantes para a nossa vida nas mãos dos outros. Outros, que nem sequer conhecemos. Aquilo que eu acho é que há, também, muita culpa na forma como se faz política em Portugal. Não atrai as pessoas, o que acaba por desencadear a sua desistência, no sentido de reformar a política para que ela seja melhor. E, se nós não participamos, não reformamos a política. Acabamos por não nos podermos queixar.

Tentaria convencê-lo no sentido de lhe fazer ver que todos nós somos pessoas com autonomia, maturidade e independência. Portanto, temos de nos afirmar. A participação é uma forma de afirmação de cada um de nós. Quando não participamos, entregamos esse poder de afirmação a outros e acabamos por fazer aquilo que é mais fácil. Abdicamos de exercer um direito fundamental e isso, a mim, faz-me muita confusão porque pertenço à geração que lutou para que todos tivessem estes direitos fundamentais. Há até países em que o voto é obrigatório e onde quem não vota é multado.

Quando nós deixamos de votar minamos, também, a legitimidade política dos órgãos. Não ha dúvida de que eles, formalmente, ficam eleitos. Mas é importante recordar, por exemplo, que, nas últimas eleições Presidenciais, houve uma participação inferior a 50% dos eleitores. e Se se tivesse tratado de um mero referendo, não teria tido poder vinculativo. Isto significa que estamos a enfraquecer a Democracia.

É um acto de grande responsabilidade ir votar. Quem desiste de comparecer acaba por perder um pouco a legitimidade para se queixar, uma vez que não esteve lá quando foi chamado a contribuir para uma solução."

Que visão tem do papel de Presidente da República?

MdB: “Eu tenho a visão da constituição. Isto é, vejo o Presidente como um árbitro, um moderador, um construtor de estabilidade, um construtor de pontes. Deve ser, sempre, alguém disponível para marcar presença quando é necessário resolver alguma coisa. Deve ser alguém que actua, de preferência, preventivamente e não apenas quando já tudo aconteceu, quando já está tudo estragado.

Considero, também, que o Presidente da República deve ser alguém intransigentemente defensor do prestígio de Portugal. Nós, hoje, precisamos muito de afirmar a nossa voz, de recuperar credibilidade, de recuperar prestígio, de recuperar de um tratamento de “menorização” que, muitas vezes, é dado ao nosso País. Esta “menorização" é uma ofensa à nossa História e à nossa dignidade enquanto país. Ainda pior quando isso acontece no espaço da União Europeia. É uma ofensa aos próprios Tratados, porque nestes está consagrado o princípio da igualdade entre todos os Estados.

As pessoas, para serem respeitadas, têm de se dar ao respeito. Portanto, eu quero um Presidente da República que lute pela respeitabilidade de Portugal, que não admita que nos faltem ao respeito. Nunca! Considero, também, que o Presidente da República deve ser coerente, respeitador das instituições e um promotor do prestígio destas. Isto, porque não há uma democracia forte sem instituições prestigiadas.

Um Presidente, ou uma Presidente neste caso, que seja capaz de assumir a representação de todos os portugueses, que esteja muito para além do espaço partidário. Eu, para demonstrar que sou assim no exercício de cargos públicos, tenho o exemplo do meu gabinete no Ministério da Saúde que não foi integrado apenas por pessoas do Partido Socialista. Tinha uma pessoa do PS. Todas as outras pessoas que trabalhavam comigo, eram as pessoas que eu considerava serem as melhores para o tipo de trabalho que era necessário fazer no Ministério, as que acreditavam na definição das políticas de saúde e as que eram leais. E o ser leal não é ser subserviente. O ser leal é dizer-nos que se está em desacordo quando se está em desacordo. Explicar-nos o porquê e apresentar-nos alternativas. Ser leal é ser capaz de dizer, não aquilo que os outros querem ouvir, mas a verdade. Porque nunca nenhum subserviente serviu ninguém, a não ser a si próprio. Isto é uma coisa que eu aprendi muito cedo quando comecei a trabalhar, com 20 e poucos anos, nos ambientes dos gabinetes dos Governos Provisórios, no princípio da Democracia em Portugal.

Era tudo isto que eu queria ter numa Presidente da República. Alguém que, realmente, percebesse os contornos da importância do papel, da responsabilidade do papel e da maneira de o desenvolver, sendo capaz de representar todos os portugueses e não apenas alguns.”


1 comentários

  1. Muito interessante!

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