Marcelo Rebelo de Sousa

Presidente da República eleito e Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Marcelo Rebelo de Sousa escreve ao Agora

Marcelo Rebelo de Sousa prometeu escrever ao Agora sobre a participação dos jovens na política e na sociedade em geral. Cumpriu. Antes ainda de assumir funções no próximo dia 9. Abaixo o texto na íntegra enviado pelo Presidente da República eleito.

Sem querer ser demasiado optimista, confesso que não partilho as visões negativistas que consideram haver uma incompatibilidade radical entre os jovens portugueses - localizados entre os onze ou doze anos e os vinte e cinco, para escolher balizas tendenciais - e a política. E menos ainda entre eles e a participação em instituições da muitas vezes chamada sociedade civil.

Começando por esta, é patente o papel crescente de jovens em associações ou clubes desportivos, culturais, bandas, movimentos locais ou sectoriais - muitos deles fora da escola - , IPSS e iniciativas avulsas da sociedade civil. Não serão os mesmos clubes ou associações de outros tempos, mas a mudança é, hoje, aceleradíssima e nem o tipo de instituição nem a forma de participação podem ser idênticos.

No fundo, esta participação de que falo, mais vasta, é também política, num sentido amplo da palavra política. Da palavra e do conceito. Porque respeita à vida da polis, da comunidade como um todo. Ou seja, para mim, é patente que os jovens participam na política em sentido amplo e de forma cada vez mais importante.

O que não participam, nessa mesma exacta medida, é em organizações ou estruturas mais clássicas, que, normalmente, são identificadas com política ou poder político. Aí, sim, apesar de indesmentíveis excepções, existe um défice de participação e de interesse. Penso no poder político nacional, em partidos,parceiros económicos e sociais. Claro que há excepções apreciáveis e que o panorama já foi pior, por exemplo, no Poder Local. Mas o afastamento é ainda enorme e o desinteresse vive paredes meias com desconfiança, rejeição, abstenção não só eleitoral como de intervenção no dia a dia. Se esta minha visão tem razão de ser, por corresponder à realidade, então o que importa é ultrapassar o estrangulamento entre a participação política em sentido amplo e a participação política em sentido mais estrito. Esse salto é que se afigura urgente!

O processo já se iniciou nalgumas áreas ou sectores. No Poder Local, em novas associações ou movimentos, criados nos últimos cinco a dez anos, em determinadas actuações das juventude partidárias ou em adesões eleitorais de jovens a certas candidaturas eleitorais. Para já não falar em grupos religiosos ou de aprofundamento espiritual, determinados a acções de serviço social. Isto é, há sinais de que não estamos perante uma causa perdida. Nem o desemprego ou a emigração, que desejamos ver superados, por óbvias preocupações de justiça, podem parar o processo de luta por essa causa.

Por tudo isto eu me considero um optimista, mas optimista com os pés assentes no chão: Vamos vencer o estrangulamento na participação dos jovens na política clássica, que eles se encarregarão de ajudar a renovar em propósitos e métodos.

E espero poder, modestamente, contribuir, para que a causa tenha êxito, no desempenho das funções que me foram cometidas pelo povo português.

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3 comentários

  1. Que assim seja! Que consiga, como PR, chegar às gerações mais novas e atingir este objectivo a que se propõe. Força Professor

  2. desta forma e com esta atitude q nos faz a nos mais velhos, q vimos e acompanhamos o eveloir destes jovens esforçados. Que vale apena acreditar q tudo o q de errado se formo no passado se irá extinguir. Muito obr.

  3. Partilho a opinião do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, nosso actual Presidente da República, e Sem querer entrar em ruptura completa com o que foi escrito pelo António, não consigo rever a geração dos anos noventa nas suas palavras. Sou filho dos anos sessenta e pai dos noventa, vejo na minha geração muito mais espelhada a ruptura tecnológica que na dos anos noventa. O dilema existencial é uma coisa do passado e foi vivido pela geração dos meus pais.... estamos a falar da cultura " Peace & Love" dos anos sessenta e setenta, das preocupações ambientais e do social e politicamente correcto. Quer me parecer até que as palavras do António assentam melhor em alguém que nasceu nos 60/70 do que num jovem dos anos noventa, redes sociais à parte!

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