João Faria


Gestor

"Ter um sonho grande dá tanto trabalho como ter um sonho pequeno."
- Jorge Paulo Lemann

Um desafio obrigatório

Vivemos dias em que é fácil escolher um desafio individual, persegui-lo e atingi-lo, com o nosso esforço do dia a dia. Escolher um propósito, e dedicarmo-nos dia-a-dia para finalmente o atingirmos. Aprender uma língua, começar um desporto novo, fazer voluntariado, começar um negócio, melhorar a alimentação, poupar para uma viagem, ir trabalhar para o estageiro.. - tudo objectivos que vemos diariamente as pessoas à nossa volta a comprometerem-se, e que nos enchem de alegria quando vemos a evolução de quem os atinge.

No entanto, o grande desafio dos nossos dias,não é individual, é colectivo. Entra-nos pelos olhos adentro todos os dias, vai havendo alguns sinais de quem acorda para o mesmo, mas não vejo uma verdadeira mobilização a nível global para que a população mundial o consiga atingir e superar.

Falo das alterações climáticas.

Os títulos dos jornais têm-nos alertado durante este ano de 2017 para os mais variados acontecimentos cuja origem é inequívoca. E não podia ser mais abrangente a nível geográfico.

Em África, o primeiro continente a sofrer verdadeiramente com o aquecimento global, continuam a haver catástrofes baseadas na aridez dos solos, na falta de chuva, e nas guerras que são causadas pela busca desesperada de alimento, sendo Madagáscar,Etiópia e o Sudão do Sul os casos mais dramáticos a nível humano, mas havendo também casos tristes de perda de diversidade animal em vários outros pontos, mas sempre pelo mesmo motivo.

A própria guerra civil na Siria, que propiciou o aparecimento do Daesh e os recentes atentados em solo Europeu, começou por causa de uma seca extrema que foi o grande catalizador para as revoluções começadas em 2011 - e isto numa região conhecida nos tempos medievais como "Fertile Crescent".

No sudoeste asiático estamos prestes a assistir a uma situação semelhante. Na India e Bangladesh, são frequentes os relatos de cheias e furacões, e sendo terras com baixa altitude é previsto por vários estudiosos que a subida incessante do nível do mar decorrente do derretimento das calotes polares vai provocar uma migração das populações rurais do Sul que vai ser incomportável para as regiões urbanas e causará novamente conflitos, além do desaparecimento de paraísos naturais como as Maldivas.

Nem os Estados Unidos da América, um dos maiores poluidores globais e cujo presidente insiste em negar a realidade em prol do favorecimento de industrias que começam a estar ultrapassadas como a petrolífera, começa a ficar imune a esta questão. O Furacão Harvey, com uma intensidade raramente vista, provocou já acima de 30 mortos e prejuízos que superam os 50 biliões de dólares.

Também a Europa sofre com os problemas climáticos. Itália é o caso mais evidente, com uma redução de 70% nas chuvas em comparação com os anos anteriores, graves problemas agrícolas, e uma situação limite que levou Roma a desligar ou reduzir as inúmeras e históricas fontes que tantos turistas lhe trazem, a bem da sustentabilidade do sistema de águas da capital. Também Portugal, Espanha e França, como infelizmente bem sabemos, têm sofrido com um número absolutamente anormal de incêndios também eles com grande ligação às temperaturas anormais que não se costumavam assistir(entre outros), e com falta de àgua que começa a por em perigo o sector agrícola.

A questão é simples: Se não acordarmos todos que é agora que temos que agir enquanto população global para reverter este processo, estas catástrofes vão se agravar, e as consequências vão-nos atingir quando menos esperarmos. E a culpa é de todos. Rejeito ouvir que não podemos fazer nada porque não somos líderes de um país, presidentes de uma companhia energética, ou não temos influência sobre nada. Não é assim.

Em primeiro lugar, temos influência nas pequenas decisões e actos do nosso dia-a-dia. Separar o lixo e utilizar materiais reciclados, optar por fontes renováveis de energia quando possível, transportes públicos ou individuais mas cheios, incluir mais fruta e vegetais na alimentação em vez de carnes(especialmente bovinas), entre outros. Aqui faria sentido o poder local tomar a iniciativa e distribuir booklets com pequenas acções que as pessoas podem fazer.

Em segundo lugar, pela pressão e pelo voto. Na Noruega, um dos gigantes produtores de petróleo, há cerca de 80 biliões de euros de petróleo no fundo do mar do lindíssimo arquipélago de Lofoten, que estão prestes a ser bloqueados por força da pressão da população local que está a enfrentar os 2 principais partidos, interessados em destruir o património natural da região para apostar numa indústria que se pretende ter os dias contados. No Quénia, a pressão local resultou também numa proibição da produção e uso de todo o plástico, removendo da cadeia o mais poluidor e destrutivo dos materiais usados no dia-a-dia. São também cada vez mais os bons sinais dados por diversos governos europeus em relação à indústria automóvel, com uma pressão que se saúda para se fazer rapidamente a transição para os automóveis elétricos. Portugal deu também um bom exemplo ao bloquear o furo previsto para a lindíssima costa de Aljezur, com o poder local a dar finalmente um bom exemplo de interesse público.

Se dedicarmos tanto do nosso tempo, esforço e foco neste esforço conjunto como dedicamos aos nossos objectivos individuais que nos ajudam a tornar melhores, tenho a certeza que os resultados serão bons. É preciso é começar Agora.

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