António Araújo


Faculdade de Direito, UL

"Those who stand for nothing fall for anything."
- Alexander Hamilton

Trump e os valores que nos definem

Na política, como em tudo, tendemos a personificar as nossas alegrias e desagrados: é mais fácil, porque mais visível, associar ações e situações a caras conhecidas – nem que seja, como dizem, para que “a culpa não morra solteira”. Com isto, exageramos os elogios e excedemo-nos nos defeitos, esquecendo que, em boa medida, o destino da vida, quando mais da História, escapa ao controlo do Homem.

A política americana é inconcebível sem essa tendência. Da mesma forma que com a eleição de Bush muitos temeram o pior, a vitória de Obama foi vista como portadora de uma paz que, veio a revelar-se, não é obra possível para um homem. Talvez pela mediatização que envolve, talvez por ser o cargo mais poderoso do mundo, essa esperança ou os correlativos receios transitam de eleição para eleição – nunca correspondendo à realidade da vida.

E, no entanto, veja-se quanto mudou, no espaço de um ano, por destino de um só homem.

Muito mudou para os cidadãos americanos, divididos como nunca por impulso de um líder que, com um discurso de ódio, racismo e desprezo por culturas que não a sua, repudiou opositores legítimos, jornalistas independentes e minorias inteiras.

Muito mudou para os europeus, privados, pela primeira vez desde a Segunda Guerra, do seu principal aliado e protetor.

Muito mudou para as autocracias do mundo, incentivadas agora à adoção de políticas de concentração do poder, de hegemonização cultural e de expansão militar, com todos os perigos que daí advêm.

Muito mudou para o mundo, condenado à perpetuação do insustentável: a industrialização, a poluição, o aquecimento global – agora reforçados pela quebra de apoio aos países mais pobres, forçados a sofrer os efeitos mais drásticos; agora intensificados pela conversão da ciência em teoria, a verdade dos factos reduzida a meros devaneios intelectuais.

E muito – tudo – mudou para os mais pequenos deste mundo, as vítimas da pobreza e da guerra, apelidados de criminosos, tratados como párias, desprezados pela sua cor, religião ou país de origem, sancionados pelo mal que nunca fizeram. Tudo mudou para os imigrantes “ilegais”, forçados a abandonarem as famílias e o país onde sempre viveram. Tudo mudou para os que, fugindo da Síria, do Iraque, da Líbia, do Iémen ou do Sudão, viram o seu asilo recusado por serem muçulmanos e conotados com “países terroristas”. Tudo mudou para os que perderam acesso a um sistema de saúde que pouco a pouco deixa de ser de todos para se restringir, como há dez anos, às possibilidades de uns quantos.

No espaço de um ano, perdemos muito daquilo que é, por excelência, a política: a constante crença num amanhã melhor, num mundo mais justo e seguro. Donald Trump subverteu por completo os valores dominantes no mundo ocidental desde o pós-guerra, apoiando o desmantelamento da ordem assim construída e propondo, em seu lugar, o isolacionismo, o protecionismo, o nacionalismo e o autoritarismo em todas as suas possíveis vertentes. Com isso, o mundo ficou mais injusto – e nem por isso se fez mais seguro.

Nem tudo mudou para pior, é certo. Na América, o rumo da Presidência determinou o surgimento de uma sociedade civil agora convertida em oposição política e fonte de inabalável esperança. Na Europa, o afastamento americano levou-nos a constatar que não podemos depender de outros para o nosso sucesso, e que o futuro está em construir uma maior e melhor Europa. Por todo o mundo, inúmeras vozes ergueram-se em defesa dos mais desfavorecidos, construindo também elas um reduto de otimismo e de efetivo compromisso com aquela nova máxima, “build bridges, not walls”.

E nisto encontra-se o essencial: um homem não pode, por si só, alterar o destino do mundo. Na verdade, a ordem liberal em que vivemos – e os valores que a constituem – não deriva de uma quimera imaginada por intelectuais e construída a regra e esquadro por políticos com eles identificados. Pelo contrário, ela decorre da História: impulsionada pela coragem de grandes líderes, sim, mas como reação às maiores catástrofes da humanidade – e, por isso mesmo, necessária, incontornável, perene.

Somos solidários, não apenas para nos sentimos solidários, mas porque a falta de solidariedade gera desigualdade e a desigualdade leva à instabilidade.

Somos tolerantes, não apenas por um evidente dever de respeito, mas para que os outros também sejam tolerantes connosco, sob pena de também nós sofrermos as consequências da intolerância.

Temos países abertos ao mundo, mais do que por nos sentirmos cidadãos do mundo, porque a abertura de fronteiras gera riqueza e a riqueza traz consigo o desenvolvimento económico e social que todos queremos.

Somos democratas, porque a falta de democracia beneficia apenas alguns, e pode-nos calhar a sorte de não estarmos nesse grupo.

A defesa destes valores passa pela participação cívica e pela educação – pelo fortalecimento da sociedade civil. Como na América, a História apela-nos a nós, portugueses e europeus, a defendermos os fundamentos das nossas comunidades e a mostrar, perante os outros, que eles fazem sentido, para todos, compreendendo que o futuro passa por corrigir os efeitos adversos que do liberalismo provenham, e não pelo desmantelamento dos princípios essenciais por que vivemos.

Na consciência de que somos nós, todos, os portadores das mudanças que queremos e do destino coletivo das nossas vidas, reside esta simples asserção, que é derrota inevitável do projeto de Trump: um homem não pode, por si só, destruir os valores que nos definem.

Cabe-nos provar que assim é, convertendo a esperança em efetiva mobilização na construção de um mundo melhor.

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