Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Troca-me isso por miúdos

Algo que gostava de fazer era poder entrar na cabeça das pessoas, principalmente, das crianças. Não porque lhes queira destruir a privacidade ou intrometer-me onde não sou chamado, aliás, bastava um pequeno vislumbre para perceber como veêm os seus olhos. Eu, tal como toda a gente, também já fui criança, no entanto, muitas vezes, já não me lembro como é ver através dos seus olhos. Tenho a sorte de ter irmãos mais pequenos que me vão relembrando. Nas pequenas coisas do dia-a-dia vão me ensinando. Nem se apercebem o quanto me ensinam. É engraçado que um dos conselhos que o meu pai me dava quando era (mais) novo era para eu nunca me esquecer do que é ser criança e aproveitá-lo ao máximo. Eu, parvo como sou, até há pouco tempo desvalorizei esta capacidade. Percebi, agora, que a chave da felicidade quando se é adulto é ser-se criança. Não no sentido de ser irresponsável, mas no sentido ver tudo com a esperança, ingenuidade, bondade e perdão com que uma criança vê.

A vida tem muito mais graça quando somos inconvenientes, quando dizemos aquilo que pensamos sem maldade ou quando nos rimos de coisas sem graça nenhuma até à barriga doer. Ver tudo como uma novidade, e, por isso, viver mais preso ao momento. Não é tarefa fácil para alguém crescido, condicionado já pelo cinismo que assola o mundo. O prazer de ver um episódio de Oliver e Benji às seis da manhã, ou explorar um sítio de bicicleta ou comprar o novo Action-Man da neve, é quase irreprodutível na vida adulta. Se calhar até é, viver neste limbo de criança e adulto é chato.

Será esse o propósito da vida? Depois de sermos crianças é tentarmos ao máximo mantermos isso. Como se exilados da Terra do Nunca pela passagem do tempo tivéssemos como propósito voltar à nossa verdadeira terra. Mas, à semelhança, do que acontece ao Peter Pan no Hook, já nos esquecemos, já não sabemos o que isso é, e ficamos presos sem meios de sair. Temos que aprender a ser crianças outra vez e deixar as crianças serem crianças, porque precisamos sempre de alguém que nos consiga ensinar o que para eles é natural numa forma instintiva. Há que contagiar o mundo com a nossa felicidade, com o nosso riso e boa disposição. Fazer da vida um jogo que merece ser aproveitado ao máximo, nunca deixando para segundo plano os sonhos que nos aparecem como representação máxima daquilo que realmente somos. Senão o que estamos para aqui a fazer ?


1 comentários

  1. Depois de ter lido as tuas palavras sou obrigada a pensar e confessar que concordo em pleno com elas! A fase da nossa Infância é a melhor fase que temos para usufruir! Claro que como em tudo na vida também há excepcões! Somos simples, autênticos, transpar

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