Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

The answer, my friend, is blowin' in the wind

Bob Dylan ganhou o prémio Nobel da literatura na semana que se passou. Algo de extraordinário, sem dúvida, ver-se alguém afastado do mundo dito literário receber a maior honra que um escritor pode ter no seu portefólio. Abriu-se um precedente e, na minha opinião, tentou-se revolucionar a definição de literatura. A Academia Sueca veio dizer que o prémio lhe foi atribuído por “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”.

Não sou nenhum entendido, nem nada que se pareça, mas equiparar Dylan a um poeta não faz, a meu ver, muito sentido ou, pelo menos, usar esta noção para defender a atribuição do prémio. Não é um poeta, é um cantor folk americano. No entanto, isto não quer dizer que não use a palavra como poucos o conseguem fazer. Um músico é um artista que usa a escrita e a melodia para criar algo novo e, quem sabe, único, porém, apesar de semelhante, não é um escritor, e vice-versa.

Dylan é, sem dúvida, incomparável. Um artista que tem trinta e sete álbuns lançados e dois livros publicados, (o Tarântula em 1971 e a sua autobiografia Crónicas: Volume 1 em 2004) só pode ser uma autêntica máquina musical. Um cantor e compositor que compôs música, de protesto e não só, espetacular, apresentando uma profundidade que atualmente escasseia. As suas letras estão maravilhosamente bem escritas, mas, infelizmente ou felizmente, não teriam o mesmo impacto noutra voz. O timbre suis generis de Dylan é discernível à distância, é totalmente inconfundível. A sua capacidade brilhante de composição alimenta-se da sua voz meia rouca para se fazer ouvir. Desafio a ouvir o “The Times They Are a-Changin'” original e comparar com a versão do Luís Represas, ou outro qualquer original com um cover. Simplesmente, não é a mesma coisa, no entanto, a letra mantém-se. Aí reside a diferença, é por isso que o defino como cantor e não como escritor. Não é menos nobre por isso, mas é diferente. John Lennon e Leonard Cohen são exemplos, entre muitos outros, daquilo que falo. A sua atividade foi centrada na música.

Ninguém poderia cantar Bob Dylan como ele próprio. Não é possível. No caso de Hemingway ou Camus a sua obra literária não dependia da sua voz, a palavra no papel chegava. A sonoridade e a melodia da própria escrita bastavam, não precisavam de interpretações. Não será a literatura a mera utilização da palavra usada ao serviço da arte, sem necessidade de recorrer a diferentes declamações para a embelezar? Se calhar é redutor, mas daí existir um Nobel e um Grammy e não um prémio único. Infelizmente, continua a ser uma pergunta para a qual não tenho resposta.

Eu continuo numa atitude expectante, não se sabe se Dylan irá aceitar o prémio ou se irá, tal como Sartre, recusar, visto que ainda não se pronunciou sobre o assunto. Mas a polémica, essa, permanecerá, qualquer que seja a decisão dele. Afinal de contas, acabou de mudar um paradigma. “Gonna change my way of thinking, Make myself a different set of rules.”

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