Francisco Farto e Abreu


Licenciatura e Mestrado em Economia, Nova SBE

"O pessimismo é excelente para os inertes"
- Jacinto, em "A cidade e as serras", Eça de Queiroz

Singapura

Lee não se limitou a construir Singapura. Lee Kuan Yew foi a própria Singapura, e o legado daquele que foi uma das grandes figuras asiáticas do século XX perdurará. Nos dias de hoje, quem nascer em Singapura terá uma qualidade de vida anormalmente alta. Terá mais oportunidades de vingar, terá acesso ao que de melhor existe em educação, saúde ou segurança social. E isto, num mundo ainda tão desigual, é por si só assinalável. Se pensarmos então no que era Singapura há 50 anos, é simplesmente ímpar.

A 9 Agosto de 1965 nasceu um país que representa um dos maiores milagres sócio-económicos que o mundo já viu. Hoje no top-3 dos países mais ricos do mundo (em PIB per capita), e no top-10 dos que apresentam melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), Singapura é uma notável história de perseverança, inconformismo e auto-superação. Como país tinha tudo para não resultar. Este pequeno território, sensivelmente do tamanho de Nova Iorque era, há 50 anos, um pântano equatorial sem recursos naturais, onde diversas batalhas haviam deixado gentes de várias etnias, com poucos pontos de contacto, e sem qualquer capital para começar. No seguimento da partida do império britânico, e da consequente auto-determinação, um homem – Lee Kuan Yew – e o seu partido – Partido de Acção Popular (PAP) – tomaram os destinos de Singapura nas suas mãos, naquilo que se viria a revelar um dos maiores e mais rápidos avanços civilizacionais de sempre. Curiosamente, Singapura é talvez o único exemplo que conhecemos em que um modelo de Planeamento Central da Economia prosperou. Porém, e como veremos, o mesmo se verificou à custa de sacrifícios que para o Ocidente sempre se mostraram insuportáveis.

Alguns dos traços contemporâneos muito próprios de Singapura têm a sua origem na fundação do país, há cinquenta anos. Sem recursos naturais mas com uma posição geo-estratégica invejável, Lee cedo percebeu que o país teria que abrir a sua Economia ao exterior, servindo assim de entreposto comercial numa zona muito relevante para o comércio entre os continentes Europeu, Asiático e Africano. Neste sentido, e porque abrir um país recém-nascido requeria cuidados, Singapura fez da sua adesão à ONU uma prioridade, um garante da sua auto-determinação como nação independente. Dentro de portas, a heterogeneidade étnica e religiosa da população residente (maioritariamente malaia, chinesa e indiana) obrigava a que o sistema político – inspirado no cabinet britânico – promovesse a participação das minorias raciais, característica que persiste até hoje. Por outro lado, a primeira grande política económica de Lee foi a criação de um órgão governativo cuja prioridade era a construção de public housing (habitação social) para a população. De facto, no início do século XXI, 85% da população de Singapura vivia ainda em casas do Estado. Este plano tão simples quanto inovador, permitiu criar duas condições que num país sem infraestruturas se mostraram fulcrais: emprego e alojamento.

Com uma determinação férrea, Singapura apostou de tal forma na indústria portuária, que se tornou rapidamente num dos mais importantes portos mundiais. Ainda nos dias que correm, Singapura exporta cerca de 200% do seu PIB, ou seja, por cada Euro que produz, exporta dois. E continua a ser um porto relevante à escala mundial, sendo o terceiro que mais mercadorias movimenta. Paralelamente, foram criados uma série de incentivos fiscais e infra-estruturais a empresas de sectores como a reparação naval, os químicos e a refinação de produtos petrolíferos. Nas décadas de 70 e 80, já Singapura crescia a taxas consistentemente acima dos 10% ao ano. Mas não ficou por aqui. Também por esta altura, um novo gigante se erguia para mundar a Economia mundial. Lee reconhecia na China uma oportunidade, mas também um adversário demasiado poderoso. Era preciso evitá-lo. Assim, numa re-orientação de política económica, Singapura apontou o seu foco para indústrias de maior valor acrescentado, focadas na inovação e no capital humano, ao invés de na acumulação de capital fixo. A partir deste momento, Singapura passa a crescer à custa de aumentos na produtividade dos factores trabalho e capital (TFP). Incrivelmente, sem no entanto abandonar as taxas de crescimento que caracterizaram a primeira fase do plano Económico de Lee.

Nesta altura, era fundamental atrair grandes empresas multinacionais, e os knowledge spill-over effects que com estas chegariam. Foi criado um one-stop shop que ajudasse investidores estrangeiros a instalarem-se em Singapura de uma forma rápida, barata e eficiente. Convém realçar que políticas desta génese foram levadas a cabo em países bem perto de nós, como o Luxemburgo ou a Irlanda. O que fascina em Singapura é a assertividade do processo de decisão, e a rapidez com que o mesmo chegava ao mercado. Em 30 anos de história, Singapura estava já numa segunda grande reforma económica que, apesar de não particularmente participada pela população, se traduzia com uma velocidade estonteante numa melhoria das suas condições de vida.

Porém, Lee foi ainda mais longe. O fim dos anos 90 deu a conhecer ao mundo um novo centro de conhecimento. Percebendo que teria que continuar a subir na cadeia de valor, Singapura identificou a qualificação do seu capital humano como prioridade. Focou-se nas áreas da biotecnologia e ciências médicas, construindo infraestruturas de qualidade invejável, recrutando e financiando talento para investigação e desenvolvimento, concentrando-o num polo a que chamou Biópolis. Nos anos 2000, não apenas inúmeras start-ups como grandes farmacêuticas como a Pfizer, a Merck ou a Wyeth se haviam instalado em Singapura. Este movimento aliou-se não só ao grande desenvolvimento do país como praça financeira mundial, mas também à criação de um ambiente propenso ao empreendedorismo e ao venture capital, com fundos governamentais investidores em inovação e um enquadramento legal, fiscal e social leve e altamente eficiente. Por outro lado, Singapura conseguiu cativar grandes universidades mundiais a explorarem o seu mercado, tendo nomes como o INSEAD, a Johns Hopkins ou o MIT, criando campus-satélite no país, ao mesmo tempo que se promoviam as bolsas de mérito aos Singapurenses que quisessem ir aprender nos centros de referência a nível mundial. Em suma, estava criada aquilo a que a Time chamou “Boston of the East”.

Se toda a descrição até ao momento impressiona, o que dizer do papel do Estado nesta Economia. Em Singapura, o Estado teve sempre uma palavra a dizer. Não apenas regulamentando e planificando o contexto macroeconómico do país, mas como interveniente directo. Boa parte das grandes empresas de Singapura foram polos estatais, e conservam ainda uma grande dose de influência central. E nem por isso falharam. De facto, a Temasek Holdings, o braço de investimento estatal de Singapura (aquilo a que podemos chamar sector empresarial do Estado) detinha no início do século (directa ou indirectamente) cerca de 20% da capitalização bolsista do país. Mais, é dado como adquirido pelo governo que, para que a estratégia económica se cumpra eficientemente, o Estado deve ter grande influência sobre os sectores considerados chave, sendo exemplo disso empresas que hoje prosperam e lideram à escala mundial, como a Port of Singapore Authority ou a Singapore Airlines.

O lado lunar desta fascinante sociedade, é o controlo e a opressão exercidos desde cedo por Lee e pelo seu PAP. Tidos como essenciais para manter a ordem e harmonia num país sub-desenvolvido e com uma população tão heterogénea, este tipo de restrições foram frequentemente alvo de críticas pelos media ocidentais. É indiscutível que o rumo macroeconómico de Singapura foi facilitado pelo estrangulamento de oposição ao regime vigente. Lee foi primeiro-ministro durante trinta anos (um recorde mundial), e moldou o país à sua imagem, com os seus valores. A auto-superação, a meritocracia e o inconformismo são características marcantes que permitiram um salto qualitativo sem igual. Adicionalmente, o combate à corrupção foi sempre uma bandeira do governo. Por um lado, o enquadramento legal é ainda hoje extraordinariamente penalizador para infractores. Por outro, e numa tentativa de atrair os melhores, e de alinhar incentivos, o pacote compensatório dos membros do executivo foi desenhado para competir com o sector privado, e está totalmente indexado à performance macroeconómica do país.

Neste contexto, ganham sentido as manifestações atribuídas ao povo de Singapura aquando da morte do seu pai fundador, em 2015. Lee não se limitou a construir Singapura. Lee Kuan Yew foi a própria Singapura, e o legado daquele que foi uma das grandes figuras asiáticas do século XX perdurará. Nos dias de hoje, quem nascer em Singapura terá uma qualidade de vida anormalmente alta. Terá mais oportunidades de vingar, terá acesso ao que de melhor existe em educação, saúde ou segurança social. E isto, num mundo ainda tão desigual, é por si só assinalável. Quando pensamos então no que era Singapura há 50 anos, é simplesmente ímpar.

*Este artigo foi inspirado num caso elaborado pela Harvard Business School, o qual não pode ser divulgado pelo autor. Os factos daí provêm na sua maioria. As opiniões apenas ao autor dizem respeito.


1 comentários

  1. Duas lições: 1. Importância de ter estratégia 2. Dar o exemplo "A auto-superação, a meritocracia e o inconformismo são características marcantes que permitiram um salto qualitativo sem igual."

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