Francisco Fráguas Mateus


Faculdade de Direito, UL

"Que a loucura é, como tantas outras, uma questão de maioria."
- Mário Sá Carneiro

Sem causa nem efeito

O fascínio dos nossos princípios, do que nos molda e orienta a nossa conduta, da pretensa moral que supostamente carregamos é a verdade de que nada disso nos caracteriza na totalidade. A beleza intrigante das nossas crenças reside no facto de não morarmos nelas. A misteriosa bondade das nossas virtudes dever-se-á, talvez, à susceptibilidade de não serem nossas.

O que seremos nós afinal senão mais que um ideal de nós mesmos? Falo por mim: as minhas vontades morreram inúmeras vezes solteiras, os meus desejos redondearam tantas vezes em fracassos e as minhas pretensões não passaram disso mesmo. Sempre que quis fazer de mim qualquer coisa, sempre que tive a idealização de me tornar numa pessoa diversa e determinada, nada mais recebi do que senão o contrário. Talvez seja este o Mistério de que tanto falam: a natureza paradoxal da vida e o delírio da única certeza que resta dela, que o mais provável é ser certo que aquilo que desejamos para o futuro de amanhã, muitas vezes (quase sempre) não será o presente dia de amanhã que iremos ter.

Tudo isto assim dito, sem vírgulas, parece um pronuncio de condenação á tristeza. Esta interpretação excessiva das coisas até pode não parecer correcta e em certa medida parece retirar todo brilho inerente à vontade que move a vida. Mas na verdade não.

Esta natureza incontornável e paradoxal desdobra-se em várias situações da vida: aquilo que desejamos é aquilo que não temos e quando temos já não desejamos, aqueles que amamos são os que nos mais retiram do nosso núcleo de estabilidade. Aquilo que pretendemos ser torna-se tantas vezes num simulacro mal feito, num vestígio distante daquilo que queríamos. Mas a vida não é só esta tentativa de construção da idealização de nós próprios (apesar de isso lhe atribuir um ingénuo e peculiar humor). A verdade é que, no limite, tudo isto nos foge do controlo.

O que dá beleza à vida é exactamente esse acaso, essa ausência de uma justificação para o acontecimento de todas as coisas, uma ausência de consciência e de voluntariedade de quase tudo o que nos molda e caracteriza.

As nossas crenças são belas verdadeiramente na medida em que são ingénuas, na medida em que não temos sequer noção disso. Tudo o resto é um esforço, uma tentativa de controlar aquilo que pela natureza do Homem e da própria vida é incontrolável.

É isso que lhe atribui todo o mistério e curiosidade. Quando tentamos entender a vida, estabelecendo elos de causa e efeito ao decurso dos acontecimentos deparamo-nos com a certeza de que não a compreendemos.

Quando a vivemos simplesmente, aí talvez estaremos mais próximos de a entender.


0 comentários

Deixar um comentário