Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Saudade

A saudade é um sentimento muito peculiar, por um lado, devido à sua subjetividade a nível de grau, inerente à sua condição de sentimento, por outro, por ser algo único quase indefinível. Quando digo que estou alegre, toda a gente percebe onde quero chegar, que sinto um certo bem-estar. Quando digo que tenho saudades, isto não acontece. Será que me sinto incompleto? Será que estou nostálgico? Será que me sinto sozinho? Saudade parece um termo um pouco vago e abstrato. Mas, à semelhança do que acontece com o amor, quando o sentimos, sabemos perfeitamente que o sentimos. Saudade é uma palavra que só pode ser usada numa interação em que as duas pessoas já tiverem experimentado o que é de facto ter saudade. Tal como eu não entendo quando alguém me diz o que é ser pai, só posso especular. Existe o mito de que saudade é uma palavra portuguesa para a qual não há tradução, mas tal não é verdade. É apenas uma maneira de dizer que palavras nunca hão de chegar para descrever um sentimento tão ligado ao fado de se ser Humano.

Nós, portugueses, limitámo-nos, talvez, a encontrar uma palavra um pouco mais próxima de nós mesmos. Para um português um “I miss you” não tem o mesmo significado que um “Tenho saudades tuas”, mas da mesma forma um “I love you” também não tem o mesmo que um “Amo-te”. Estamos amarrados pela nossa língua. O sangue de viajante torna necessária uma melancolia de estar longe daquilo que conhecemos e de que gostamos. No entanto, esta melancolia não implica tristeza. Melancolia no sentido em que, apesar de gostarmos ou não da realidade com que nos deparamos no agora, não conseguimos reproduzir o que já passou. De certa forma, saudade é o símbolo do Homem contra o tempo, contra a mudança que caracteriza a nossa existência. Uma luta que nunca pode ser ganha devido à indiferença que o tempo tem em relação a nós. O tempo, por muito relativo que seja e por muito que abrande, nunca vai parar. É uma chatice.

[Saudade é a] lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade. ” — Carolina Michaëlis, "A Saudade Portuguesa".

Saudade implica, nesta definição de Carolina Michaëlis, uma certa infelicidade, uma incompletude, uma falta, uma tristeza. Não concordo, posso ser feliz e completo e, no entanto, relembrar com saudade um tempo em que outrora também fui feliz. Tomemos o exemplo de alguém mais velho que olha para os tempos de juventude com saudade, mas que viveu uma vida cheia e feliz. Infelizmente, também não a consigo definir, apesar de já ter tentado. Só sei que a sinto.

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