Tomás A. Reis


Aluno de Mestrado no Perimeter Institute for Theoretical Physics

"I was born not knowing and have had only a little time to change that here and there."
- Richard Feynman

Ridete Pagliacci

Os media americanos, e agora recentemente também os media ingleses e canadianos, andam a correr uma série de peças sobre o fenómeno dos “clown-sightings”. Esta leva começou algures no Verão, com um punhado de pequenos grupos disjuntos de pessoas que se vestiam de palhaços e assustavam pessoas, sobretudo à noite, sobretudo quando sozinhas. De repente, falava-se de casos em que atraíam crianças para o mato. De repente, falava-se em casos em casos que andavam com facas ou tacos de basebol, mas sempre aparentemente apenas com o propósito de assustar. De repente, há polícias a seguir queixas, escolas a fechar devido a ameaças, páginas de facebook de palhaços a resultar em prisão, “felony charges of making a terrorist threat connected to 'clown-related activity'", artigos na CNN, Fox News, BBC, The Guardian. Tudo porque se falava em palhaços. “Falar”, termo chave. Sem dúvida, há casos, os vídeos correm por aí para os curiosos. Mas muitas das escolas que fecharam começaram com rumores de crianças e adolescentes. Crianças e adolescentes estes com acessos a rede sociais, onde os vídeos saltitam de mensagem em mensagem. Claro que sempre houve histórias de terror pueris passadas como “histórias verdadeiras”, mas entre o sensacionalismo dos media e a viralização do entretenimento e da informação nas redes sociais, criou-se uma plataforma onde notícias, parvoíces internáuticas, rumores da escola e a atenção dos pais se mistura numa salada pós-factual que gerou o que alguns psicólogos já chamam um caso de “histeria em massa”.

Contudo, não é destes palhaços que eu quero falar. À medida que Donald Trump se aproxima da Casa Branca, a sociedade americana interroga-se sobre o que poderia, ou se poderia, ter feito algo, para que este cenário não tivesse ocorrido. Como é que um candidato terciário, quase um “joke candidate”, sem peso político, é hoje a segunda pessoa mais provável de se tornar presidente? Porque o ouviram. Os media podiam ter ignorado Donald Trump, não completamente claro, mas pelo menos uma cobertura semelhante à que candidatos igualmente ignóbeis tiveram no passado, como Herman Kaine, um magnata excêntrico que concorreu em 2012. Tal como podiam ter ignorado o fenómeno dos palhaços. Porém, Donald Trump sabe ser bombástico, mais, sabe ser telegenicamente bombástico. Tudo o que Donald Trump dizia era uma manchete, um clip no feed de facebook. Ouviu-se Trump, viu-se Trump, a sua presença permeou a opinião pública. Claro que isto não contém em si o fenómeno Trump, falta olhar para o lado do eleitor, porque é que as pessoas ouviram e concordaram. Todavia, não há dúvida que a exacerbada projecção mediática do magnata laranja foi um elemento crucial, e levada a cabo por gente que o afirma repugnar. Os media tornaram Trump real tal e qual como tornaram os palhaços um fenómeno.

Exercícios retrospectivos à parte, quer Trump ganhe quer não, o seu movimento existe e atingiu dimensão tal que não se dissipará assim tão cedo. Tal como a Front National, o AfD, o UKIP, e os restantes movimentos nacionalistas e a emergente alt-right. Tendo falhado a prevenção da sua eclosão debatemo-nos agora sobre como pode a sociedade globalizada liberal e multicultural enfrentar estes movimentos. Pois acontece que estamos (e por nós tome-se esta sociedade aberta e pró-Europa) a cometer metaforicamente o mesmo erro: estamos a tratá-los como palhaços assustadores. Quando nos limitamos a etiquetar estes movimentos como fascistas, extremistas, racistas, e uma série de outros -istas acusatórios estamos a reduzi-los a uma caricatura que ignora as causas subjacentes e as nuances envolvidas. Estes movimentos são certamente xenófobos, isolacionistas e nacionalistas, mas na sua maioria não são realmente fascistas. E acusá-los de tal pouco adianta. Chamar racista a Trump não humaniza os emigrantes e refugiados, nem lhe chamar louco evidencia a loucura do seu plano de impostos. Perdermo-nos em disputas de comentários politicamente correctos com a Front National, em vez de focar em como voltar a nações isolacionistas e nacionalistas é retrocesso civilizacional que pode comprometer a economia e estabilidade global. Tudo o que esta propaganda de medo hiperbolizada (o dito “fear-mongering”) tem feito é alienar ainda mais aqueles que se inclinam para estes movimentos. Eles vendem ideias, um plano, um futuro. Nós devolvemos insultos, desprezo, e demonização de eleitores comuns. Eles falam dos problemas que os eleitores sentem, nós acusamos os eleitores de ter problemas. Não admira que para esta crescente fatia da população ocidental, ao ouvir os berros de um centro político que os desiludiu, não fique convencida dos problemas graves do caminho que querem seguir. Meses mais tarde assustamo-nos com as sondagens.

Durante a campanha do Brexit alguns comentadores discutiram como o “In” devia evitar focar-se na narrativa “Farage = racista” e na apocaliptização do “Out” e antes procurar responder às preocupações reais que alimentavam o cepticismo das pessoas face à União. Se foi isso que aconteceu, se foi isso que foi crucial, não sei. Sei que a noite de 23 de Junho virou o mundo. E temo que não ficará sozinha nos próximos anos. Especialmente enquanto este histerismo mediático, aliado a uma política sem narrativa de futuro e um debate público sem substância, perdurar. Não sei quem serão os palhaços no final, mas agora estamos a ser “nós”.


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