Tomás Roquette Tenreiro


Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia e de momento a realizar um mestrado em Plant Sciences na Holanda na Universidade de Wageningen

"You can't build a peaceful world on empty stomachs and human misery."
- Norman Ernest Borlaug

Puxa uma cadeira e vem sentar-te à mesa comigo.

Puxa uma cadeira e vem sentar-te à mesa comigo.

Senta-te à mesa! Senta-te à mesa porque à mesa somos mais gente. Sentados à mesa é nos revelado o que nos distingue de outros seres e é nos permitida a experiência do estado mais civilizado a que o comportamento humano pode chegar. No entanto, existe algo presente à mesa que é muito nosso, muito mais nosso do que de outros povos. À mesa somos verdadeiramente mediterrânicos. Não existe outro lugar onde o espírito mediterrânico se faça sentir mais do que à mesa. E ser mediterrânico é ser parte de uma das criações mais espantosas que a humanidade já produziu.

Disse uma vez Miguel Sousa Tavares em ambiente descontraído que o mundo mediterrânico era a mais espantosa das criações humanas em diversos aspectos. No aspecto político pela fundação da democracia (que apesar de pouco me convencer reconheço que ainda não foi encontrada uma alternativa melhor), no aspecto artístico pelo renascimento, no aspecto das descobertas pelos descobrimentos de um novo mundo e no aspecto gastronómico pela riqueza e diversidade de sabores que a sua dieta apresenta. Disse ainda que devido a tantos outros aspectos o mundo mediterrânico é o coração da Europa. Tantas vezes colide a razão com a emoção como colide o sul com o norte. Mas uma Europa desligada do mundo mediterrânico é uma Europa cegamente racional e carente de emoções que permitem entender a vida com outro sabor e com outra profundidade. Ao ouvir tais palavras, pensei que se tratava de uma abordagem muito simples mas que sem dúvida de enorme interesse e verdade. Assim sendo, será igualmente impossível não recordar uma conversa que tivemos uma vez em família, em que o meu pai, seguro de si, defendeu que o centro do mundo era o espaço mediterrânico. Dizia-o não só por todas as influências culturais que nele se fazem sentir mas também pela própria localização geográfica capaz de praticamente unir três continentes tão diversos num espaço no qual culmina toda esta diversidade de forma única.

Ser mediterrânico exige que se compreenda as maravilhas da sua cultura e a importância da mesma na preservação daquilo que é um dos estados de maior riqueza da civilização humana. É precisamente neste ponto em que sentado à mesa me apercebo do valor que a mesa tem na realidade mediterrânica e na construção de uma civilização dignamente humana. A mesa é um espaço cuja importância remete aos tempos bíblicos. Um espaço que revela equilíbrios sem os quais o homem fica muito aquém das suas potencialidades. Sinto uma enorme falta de civilização em países onde a refeição não faz parte das prioridades diárias, em que o espaço mesa não é respeitado e em que essa perda se reflecte num estado de enorme individualização das pessoas que perdem períodos de pura convivência essenciais na construção de um espírito humano equilibrado e saudável.

Como mediterrânicos entendemos o tempo de uma outra maneira. Para nós o tempo mede-se na qualidade dos momentos, na autenticidade das experiências e na honestidade com que se saboreia a simplicidade da vida. Para nós o som de uma rolha ao abrir uma garrafa de vinho tem outro sentido, pois não se trata de uma lata de coca-cola sem nada para contar. É outro som! É o som de um produto que leva nove anos a crescer na árvore e que depois de colhido à mão é usado para vedar a mais romântica das bebidas. É o som dos milhares de milagres que dia após dia permitiram que aquela garrafa pudesse ser aberta naquele momento. Mas como mediterrânicos vamos mais longe, porque à mesa o peixe sabe a mar, permitindo-nos viajar para onde o sal das ondas tempera o que saboreamos. Como mediterrânicos, os sabores não se ficam pela boca. Eles levam-nos mais longe, levam-nos a múltiplas experiências. Experiências que fogem do referencial em que o mundo apressadamente hoje vive. À mesa trocam-se olhares. À mesa trocam-se palavras que nos fazem romper barreiras e que nos permitem passar a fazer parte da vida de outros. À mesa apaixonamo-nos! À mesa relembramos, sonhamos, discutimos e muitas vezes zangamo-nos mas é também à mesa que nos reconciliamos, que nos tornamos cúmplices e que acima de tudo nos sentimos verdadeiramente vivos.

Noutras latitudes, onde vivo actualmente, deparo-me diariamente com uma realidade triste que não encaixa definitivamente com o meu ritmo e muito menos com a minha personalidade. Vive-se um quotidiano apressado em que as pessoas não se sentam à mesa juntas para comer porque estão cegamente preocupadas com alguma particularidade que por incrível que pareça não pode de maneira nenhuma esperar. São vidas empobrecidas, sem tempo para à mesa trocar ideias e experiências que nos fazem mais pessoas. E esta é uma questão que vai fazendo cada vez mais parte da agenda. A preocupação obsessiva com a nutrição humana como se de gado nos tratássemos, como se tivéssemos mínimos de ganhos diários a atingir. Uma preocupação com a refeição cada vez mais racional que vai destruindo o seu lado mais emotivo e de maior significado (porque “não só de pão vive o homem”, MT 4:4). Enquanto mediterrânicos é essencial contrariar tendências crescentes como a substituição de refeições autênticas por fontes concentradas de nutrientes ou como o seguimento de dietas rigorosas baseadas unicamente nos requisitos nutritivos mínimos. A mesa é o nosso maior património enquanto civilização, é nela que nos fazemos realmente pessoas.

Ignorar este espaço leva à perda de algo sagrado mas mesmo deixando de parte questões de carácter religioso, a mesa tem diariamente um papel fundamental na preservação de algo bem mundano. A família. A família que é a meu ver a nossa grande estrutura enquanto pessoas e um pilar indiscutível na construção de sociedades equilibradas mas que infelizmente nos dias de hoje tantas vezes é desprezada. No espaço familiar, a mesa tem um papel estrutural. Uma família que vivendo junta não se reúne à mesa está a perder a maior oportunidade diária que tem de viver verdadeiramente como família. A mesa é assim um espaço de partilha diário em que se permite a transmissão de conhecimento, que por si só já é uma forma de educação, em que perspectivas multi geracionais se debatem, em que valores educativos se estabelecem e mais que tudo, em que obrigatoriamente somos forçados a parar por um momento que seja para ouvir os outros. Acredito que muitos dos problemas sociais de carácter educativo que temos hoje em dia na nossa sociedade são unicamente fruto da extinção de uma refeição diária em família.

Perder tempo para comer é de facto perder tempo para viver. Porque o Homem faz-se Homem à mesa e é nesse espaço que os nossos sentidos mais civilizados são experenciados. Por mais que veja deste mundo cada vez mais sei que é precisamente sentado à mesa, em família ou com amigos, que sem medir o tempo e perdido em conversas e sabores, me sinto mais civilizado. Por isso digo, tirem-me tudo mas deixem-me uma mesa onde me possa sentar para calmamente jantar.


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