O primeiro raio de sol ilumina o restante dia, alguns acompanham-no. Outros fogem dessa luz e entregam-se à penumbra da noite. O meu Tejo - que é de todos, mas especialmente meu - lá vai caindo em direcção do mar, atravessado pelos incontáveis barcos que por lá passam.
As ruas continuam movimentadas pelas vozes das pessoas que passam, pelos sons dos carros que apitam, pelos gritos das crianças que choram, pelas gargalhadas dos loucos da vida e também por mim. Amanhã estarão talvez as mesmas pessoas, quem sabe as mesmas crianças ou estarão só pessoas diferentes daquelas, com loucuras distantes daquelas mas sempre nesse perpétuo movimento.
O silêncio e o sossego serão sempre mais próprios e legítimos da noite se bem que a intensidade das emoções que se proclamam nessa ausência de luz poderão ser bastante mais vividas.
Nesses jardins que existem nesta cidade, quando enfim os prédios lhes concedem espaço, continuarão a existir pássaros que palram e insectos que picam e relva que cresce sem que o medo pelo fim os atormente ou o desejo pelo o indefinido os desassossegue. Provavelmente num desses eternos e sábios bancos de jardim estará amor a nascer, lentamente, diante da face de dois jovens sem que eles próprios se apercebam que isso lhes foge ao controlo da alma. Quem sabe se não estará numa rua próxima desse jardim, duas outras pessoas cujo tempo e a rotina lhes desencadeou a incerteza e a insegurança daquilo que sentiam e, por consequente, a exigência de algo mais que eles próprios não sabem o que é, que acabou por exigir o final de tudo aquilo que existia mas que eles nem deram por isso! Porque se pode desejar, tendo aquilo que desejamos, sem nunca nos termos apercebido disso.
Num hospital, não muito longe do local onde aquele amor e aquela vida acabaram, grita desenfreadamente um outro pequeno ser que se juntou a este grande mundo e nada mudou, a não ser a felicidade daqueles que o rodeiam. Defronte do hospital, o homem que olhava para o chão pensando nas angústias do seu próprio mundo, finda-lhe a vida devido ao seu egocentrismo e por provavelmente não estar a olhar para a infinidade deste nosso céu.
O sol vai-se ajoelhando ao Tejo, e essa noite cai por Lisboa, rebatendo as águas agitadas e os olhares dos perdidos da vida. Uns adormecem porque a vida os cansa, outros porque nascem cansados. Outros fecham os olhos para sonhar porque há sonhos em que a vida é bastante mais vivida do que a realidade. Outros sonham porque acreditam e outros pura e simplesmente nem estão cansados, nem sonham.
Perto dessa luz de candeeiro que se apagou para dar aso ao repouso de alguém, outros seres batem com os copos e celebram a vida sem saber que não estão a celebrá-la verdadeiramente.
Outros diante do bar defronte entregam a vida à boêmia lisboeta, vertente taciturna da vida, e afogam-se em bebedoiros para que a memória não os atraiçoe, nem que o sentir lhes relembre o que é a vida porque isso magoa.
A noite volta-se a envergonhar das figuras ridículas, das tristezas e das loucuras que cometeu e resguarda-se para dar espaço a essa luz que vem e nós nunca perguntámos o porquê, ou se há mais algo para além disso. Aproveitando essa luz, o homem trabalhador e empenhado dirige-se para o seu ofício acreditando que vai mudar o mundo mas regressa a casa tão vencido quanto havia chegado no dia anterior.
Por detrás desse homem está a estudante com os livros por baixo do braço, com horas de leitura pela frente e com uma vontade, uma crença remota, de que naqueles livros constam o seu futuro e retorna a casa tão maltratada quanto chegou no dia anterior, porque nunca parou para olhar o sol, nem ouvir palavras de gente. Do outro lado da rua, atravessa aquele que pensava que era amado, regressando do bar que o abraçava e que consolava as suas desavenças para com a vida e para com o próprio futuro. Quando chega a casa, acorda o irmão porque a física não o ajuda e o facto de estar ébrio também não. O irmão que tinha dormido pouco, pensando no nervosismo que era a sua vida, exalta-se e vai tomar banho porque hoje para ele será um dia importante.
Mas de facto, o fascinante disto tudo é que nenhuma vida é mais legítima do que a outra, nenhum desespero próprio é mais ridículo do que o que está em frente, nenhum desejo de alterar o mundo é mais real do que o desejo de um terceiro e que, no fundo, esse tudo é um nada e esse nada é tão pouco.
Porque a vida não é mais do que isto: Nascer e observar a luz do dia e de vez em quando, quando a alma nos pede ter um encontro com a própria noite. Pois, no fundo, a vida é mesmo isso. Aprender a amar e de repente já não ser suficiente. É acreditar e não saber sequer no que se acredita, porque no fundo depositar confiança e crer em algo já é suficiente. É sonhar nem que seja para que os nossos sonhos se transformem na nossa realidade, e que a nossa realidade seja só a passagem física por esta vida.
Porque no fundo o mundo agita-se, transforma-se e altera-se e nós não mudamos nada mais do que aquilo que nos rodeia, pois na rua ao lado a vida continuará a ser vivida da mesma maneira. Porque no fundo o que importa no fim disto tudo não é aquilo que desejámos, quisemos ou perdemos mas sim aquilo que, de vez em quando, encontrámos. Porque, no fundo, o que importa é que o sol continue a raiar, que o Tejo se dirija para o mar e que o céu exista para que essas estrelas possam mesmo ser nossas, quando já pensamos que o são.
Somos demasiados pequenos para a dimensão que criamos dos nossos problemas. Porque não só respirar e viver?
Que bem escreves........cheio de sentimento! Bjs
Ainda há poetas intensos que manifestam a sua alma de uma forma total. A prosa poética vem ao encontro da realidade do quotidiano. Os Poetas geralmente não são facilmente compreendidos. Parbéns. Um abraço.