Sofia Cabrita


Faculdade de Direito, Escola de Lisboa, UCP

"Better to iluminate that merely to shine, to deliver to other contemplated truths than merely to contemplate."
- St. Thomas Aquinas

Pequena Europa

Pequena Europa

Vivemos cada vez mais “exasperados” e inquietos. No rescaldo de uma ferida ainda por sarar de Novembro último, o terrorismo volta a assolar o coração da Europa. Não conhecemos o Estado Islâmico e a incerteza dos seus futuros passos levam-nos a dar os nossos para trás. A questão da segurança e da liberdade ganha novos contornos quando são as nossas casas, mesmo aqui ao lado, que são atacadas. Eu sei que não é o mesmo ouvir Paris ou Bruxelas, como o é ouvir Alepo, Damasco, Bagdad.... Não o devia ser, mas é assim.

Não conseguimos dar resposta às duas grandes crises que se vivem nos dias de hoje- a da segurança e a da migração. O crescimento da extrema direita na Europa é apenas uma das faces visíveis disso mesmo, sendo exemplo marcado o partido da Frente Nacional, de Le Penn. Ainda assim, não devem ser confundidas. A crise da segurança e a crise da migração devem ser separadas, sobe pena de cairmos novamente no mesmo erro. Londres (2005), Madrid (2004) e Burgas (2012) acontecem numa Europa até então imaculada. A vida dos europeus transformou-se- para o bem e para o mal. Longe estavam os anos em que se viria a falar da maior crise humanitária no pós II Guerra, em que se discutiria nos grandes centros de decisão o alojamento de milhares e milhares de famílias que fogem da guerra, que fogem daqueles que nos atacam também a nós e às nossas casas. Ainda nada ou pouco se falava do ISIS, e a Europa levava já com os seus primeiros tiros. Enganam-se aqueles que pensam que a culpa é daqueles que hoje querem sobreviver, tal como nós.

Agora, findos 10 anos, é deprimente reler as últimas intervenções públicas de Jean-Claude Juncker sobre a necessidade de as polícias e os serviços secretos “cooperarem mais”. Em Novembro do ano passado, no dia a seguir ao ataque terrorista de Paris, Juncker lembrou que a Europa pede “mais cooperação” entre os Estados-membros desde 2001. O problema, e mais do que isso, a sua solução, vai além de sistemas de cooperação de segurança, de partilha de informação e controlo de fronteiras- a concretização e implementação dos mesmos cabe aos dirigentes europeus, cabe a estes salvar a vida dos seus cidadãos, por muito que isso destrua o sonho europeu de um continente livre. Mas, mais uma vez, a solução final passa também pelas nossas casas, pelo nosso dia-a-dia, por cada um de nós, quando, nas nossas vidas, nos deparamos com a diferença. E se começássemos pelo óbvio?

A imigração marcou, desde os seus primórdios, a história europeia. Mas, se a imigração faz parte do “esqueleto” europeu, a integração está longe de ser a desejada. A ideia de uma Europa multicultural, dos grandes mundos, dos grandes movimentos migrantes precisa hoje, como o provam os últimos acontecimentos, de uma revisão profunda. Estes provam também que nem tudo se resolveu com subsídios. Não têm medo da morte e são dos nossos, são europeus- os terroristas do mundo de hoje vivem nos bairros pobres envolventes das grandes e ricas capitais europeias, e fazem-se explodir junto àqueles que cresceram com eles, a quem chamam de “infiéis”. Crescem nas comunidades muçulmanas desses países, em particular em bairros como Molenbeek, em Bruxelas, ou tantos outros em Paris, Marselha e Londres, mas estão longe de se sentirem europeus. Esta ideia de segregação encontra-se espelhada em qualquer uma destas cidades. São os bairros dos indianos, dos paquistaneses, dos turcos, dos árabes. A “China Town” dos de pele escura, das mulheres de burka e onde se fala outro idioma, como se entrássemos noutro país. E é nesta “integração” que nos convencemos que criámos ao longo dos anos, que o islão fundamentalista busca a adesão dos jovens e se reforça o gueto.

Mantemos estas comunidades à distância, enquanto os Estados Unidos fez, ao longo dos tempos, precisamente o contrário. Como dizia o ministro do Interior belga, nos Estados Unidos a segunda geração de emigrantes pode ambicionar chegar a presidente, enquanto na Europa a quarta geração anda a fazer-se explodir e a sonhar com califados. Estamos longe de conseguir chegar ao melting pot que os EUA alcançaram para a maioria dos seus emigrantes, muitos dos quais chegam sem nada. Hoje, os líderes das grandes empresas americanas vêm dos quatro cantos do mundo. Nesta “meritocracia” bem conseguida, os americanos ensinam-nos a olhar para as pessoas pelo que elas são, pelos seus frutos e não de onde vêm. Reconhecendo muitas das suas falhas, ainda assim, na sociedade americana, qualquer um pode chegar a qualquer posição- não é ficção: basta olhar para as origens de vários candidatos republicanos. Nós, os europeus, parecemos dar o empurrão final, de certa forma, para este islão radical nas camadas mais jovens, numa espécie de isolamento em cadeia, de geração em geração, e afastamo-los da nossa cultura, das nossas casas, dos nossos trabalhos e bairros.

A Europa precisa de começar pelo óbvio- “subsidiar menos, integrar mais” como dizia João Miguel Tavares. Desprender-se de preconceitos, aceitar a diferença, tirar partido desta e, mais do que isso, aprender a gostar da diferença.

Em pleno século XXI, e a viver uma das maiores crises humanitárias do século, encontramos uma boa oportunidade de, no presente, evitar novamente este isolamento cultural e social em que caímos desde os primeiros movimentos migrantes. E corrigir os erros do passado- esperando que não seja tarde demais.

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3 comentários

  1. Grande texto. Muito inteligente

  2. Texto muito bem escrito. Uma análise inteligente que nos leva a parar, observar, pensar e tomar consciência.

  3. Sofia, você descreve muito bem aquilo que sente e do que sabe em relação ao tema. Grave e que a todos nós preocupa e muito bem diz que não passa por subsídios mas sim integração e ai se calhar começa o problema, isso dá trabalho. Trabalho que infelizmente

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