Tomás Roquette Tenreiro


Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia e de momento a realizar um mestrado em Plant Sciences na Holanda na Universidade de Wageningen

"You can't build a peaceful world on empty stomachs and human misery."
- Norman Ernest Borlaug

O respeito mútuo deve ser condição para o bom trato.

O respeito mútuo deve ser condição para o bom trato.

Numa Europa nova, em que se abrem portas indiscriminadamente à diferença em função da evolução do espírito, surge inerente a este fenómeno, uma questão estrutural: se estamos verdadeiramente a proporcionar uma evolução de ideias e a melhorar o espírito humano ou se porventura caminhamos de olhos fechados para uma vala comum.

É claramente um dos maiores desafios que enfrentamos enquanto europeus. Como cristão, em particular, esta questão ganha um enorme peso na minha consciência. Tendo a avaliar o problema segundo uma visão relativa, própria do Homem creio, mas tentando tomar o amor e a misericórdia como valores absolutos, o que é algo extremamente difícil e consequentemente gerador de uma notável inquietude interior. Na verdade, o que realmente me provoca é pensar se estou apenas ignorando as consequências finais da minha decisão, podendo com isso perder não só a razão como também a oportunidade de ser mais justo e de evitar um mal maior.

Acreditando piamente no dever de fazer o bem, de empregar amor em todas as minhas acções e posições ideológicas, não consigo parar de pensar no enorme desafio a que a consciência europeia está sendo posta à prova.

A Europa tem vindo a construir-se cada vez mais tolerante, cada vez mais permissiva. Com a implementação de sistemas educativos experimentais e com uma presença do valor família cada vez menos impressa no crescimento das nossas crianças, estamos a perder a oportunidade de as fazer crescer sob uma realidade enriquecedora e enriquecida pela partilha de valores entre gerações, valores que são em certa medida intemporais, pela manutenção de hierarquias geracionais (que servem a meu ver como ferramenta fundamental na construção do respeito) mas principalmente enriquecida por uma identidade. É essencial a existência de uma identidade para a construção do progresso, que não deve ser fruto da exclusão do passado mas sim da sua análise e constante melhoramento. Nunca uma Europa que ignora a sua identidade pode caminhar no sentido do progresso. Sem identidade tristemente caímos na ausência do que poderíamos ser. Passamos a nada. Uma Europa descrente no que é e com medo de se afirmar ideologicamente, caminha para o abismo e não para o progresso. Não é abstraindo-nos totalmente do que fomos e ignorando posições por vezes “conservadoras” que melhoramos, porque quem conserva é tão necessário como quem cria, pois não há criação que seja válida sem ser mantida e sem ser conservada.

Questões como a laicização do estado têm igualmente contribuído para a perda de identidade, porque uma religião traz consigo toda uma conduta ética inerente que acaba por condicionar de forma intensa o comportamento humano. Uma Europa de costas voltadas à religião, que é a meu ver bem diferente de uma Europa laica, é uma Europa empobrecida espiritualmente, despida de uma identidade cultural e desmarcada de uma conduta comportamental determinante na preservação da ética humana.

Uma Europa evoluída tem de ser claramente uma Europa de consciência social, tem de ser claramente uma Europa de carácter activo na defesa da dignidade humana mas é imperativo compreender em que condições se constrói a consciência social de que falo. A crise humanitária dos “refugiados” é hoje o grande desafio não só à consciência colectiva europeia mas também à consciência individual de cada um. Já não é apenas às nossas portas que o problema bate, ele está crescentemente presente no seio das nossas sociedades.

A Europa que sonhamos ter, de perfil multi-cultural e incondicionalmente tolerante, representa uma possível ameaça a toda a nossa evolução enquanto espírito europeu. O progresso requer respeito. Sem respeito não se ouve a diferença, não se sabe o que se desconhece e consequentemente não se evolui. O homem tem necessariamente de respeitar se desejar evoluir, mas a questão é quais serão as condições desse respeito e em que condições este é verdadeiramente válido e por isso gerador de progresso. A Europa está, no meu entender, claramente a perder a noção de quais as condições para que se preserve um respeito realmente positivo. Porque a meu ver o respeito incondicional conduz as sociedades a um estado de indiferença e a indiferença não é certamente um acto de amor. Não se cuida sendo-se indiferente. Questiono-me se esta é então uma Europa verdadeiramente preocupada em cuidar ou se uma Europa passiva, refugiada num discurso fácil e incapaz de assumir posições concretas.

Respeitar extremismos e visões de imposição não é válido na construção de um espírito evoluído. E respeitar quem os respeita também não pode ser. Esta questão torna-se realmente uma inquietação atroz para a nossa consciência sabendo que cessando o respeito indiscriminado se afectam inocentes não sendo nós assim absolutamente justos. Mas como ser relativo, ganho essa consciência e percebo que a própria ética se poderá porventura relativizar, que não será talvez possível sermos sempre absolutamente correctos e que portanto o valor das nossas decisões poderá acabar sendo medido dentro da relatividade das suas consequências (ou pelo menos das suas intenções).

Este é um problema para o qual busco respostas, sem grande sucesso! Mas acreditando que esta posição passiva que tomamos não resolve o problema, vejo como urgente medir o efeito desta aceitação indiscriminada pois falamos de diferenças culturais que se medidas no tempo chegam a estar na ordem de algumas centenas de anos. Não é o mesmo acesso à informação ou à globalização que coloca o homem no mesmo ponto evolutivo. É necessário compreender que nem todos estão preparados para essa transição. Existem primeiro enormes barreiras a ultrapassar e grande parte da realidade dos povos migrantes (não por questões raciais) está claramente nesse ponto. É preciso educar, e acredito que essa educação poderá mesmo passar pelo estabelecimento de relações internacionais, com muitas destas zonas de conflito, baseadas no conceito de protectorado assentes no desenvolvimento sustentado dessas áreas mas sob a gestão de quem tem capacidade para o fazer. E infelizmente são inúmeros os casos em tais regiões de que não existe maturidade para tal responsabilidade.

Na Europa é necessário realmente reafirmar uma identidade comum (que não tem de ser necessariamente religiosa a fim de evitar conflitos, embora enquanto crente veja o quão benéfica poderia ser para o fortalecimento da ética e do próprio civismo) e que eduque segundo padrões pois não existimos na ausência de padrões. Não somos seres abstractos, podemos encontrar doses de abstraccionismo nas nossas vidas ou construir os nossos próprios padrões mas para tal é fulcral atingir um certo nível de maturidade, ao contrário de impor um crescimento despadronizado às nossas crianças, que crescem sem saber o que defender pois nem sabem o que são.

Europa, ajudar implica também medir a consequência dessa acção. Aceitar indiscriminadamente não resolve o problema nas zonas de conflito, não melhora a vida dos que lá ficam e cada vez menos acredito que melhore a dos que vêm. Como testemunha a irmã María de Guadalupe (que vive há dezoito anos no Médio Oriente tendo passado os últimos quatro na cidade síria de Alepo), enquanto a fonte não se fechar o problema não deixará de correr, referindo ainda o enorme erro que foi dar poder a oposições aparentemente moderadas (que de moderadas nada têm), o facto destes países não estarem preparados para sistemas democráticos e ainda levantando a questão de uma possível adaptação de muitos destes refugiados ser muito maior em países islâmicos que no ambiente europeu. Existe urgência? Sim! Existe desespero? Sim! E não quero de todo fechar o meu coração e a minha consciência a essa realidade mas é importante compreender que a Europa em que nos tornamos, ausente de identidade, ingenuamente respeitadora e tolerante, perde as noções do relativismo da sua tolerância e entra a passos largos numa situação de enorme susceptibilidade à sua destruição. E tal destruição já começou!

No dia em que esse cenário ganhar visibilidade aos olhos de todos, veremos que já não existirá espaço para respeito e que já não existirá espaço para tolerância, porque já havemos perdido toda a nossa independência ética. Pois o respeito mútuo deve ser condição para o bom trato, e a meu ver, estamos a tratar demasiado bem quem não nos respeita. O que gera injustiça e pode por si só ser um acto de enorme falta de amor pela nossa Europa e por todos nós.


3 comentários

  1. Parabéns pelo texto! É sempre de saudar espíritos críticos que não "engolem" a realidade sem a pensarem. À parte do seu pessimismo, denoto uma ambígua definição de Europa. Como bem referiu, a questão é mais "térrea" do que religiosa, mas a sua adjetivação

  2. sobre a ação europeia (respeito indiscriminado; incondicionalmente tolerante) deixa-me um pouco apreensivo. Contudo percebo, de certo modo, onde quer chegar mas é bom não tomar estes episódios recentes como isolados de história. Termino com uma citação do

  3. do texto: "não se sabe o que se desconhece e consequentemente não se evolui."

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