Henrique Alpalhão


Assistente Convidado, Nova School of Business and Economics

"Há gente para quem a liberdade tem um sentido essencialmente agressivo"
- António de Oliveira Salazar

O processo Bokanovsky

Este artigo resulta da colaboração entre José Pedro Valadas da Silva e Henrique Alpalhão.

1931: A.H. senta-se à escrivaninha. Acende um cigarro, ajusta o copo; prepara diante si tela digna de obra intemporal. Invoca o engenho - que indigno fim poderá dar à humanidade?

Entre longos tragos pinta um ignóbil enredo. Trágica, certamente, seria a entrega do nosso destino. Vil, sem dúvida, fazê-lo de consciência tranquila. Cataclísmico: ser o próprio agente de tal desfecho.

Numa escola-laboratório, clones aprendem a clonar.

Standard men and women, in uniform batches.


Da análise da actual mais jovem geração de adultos resulta uma dificilmente contornável conclusão: são na sua larga maioria semelhantes, veiculam homogeneamente as mesmas opiniões banais, participam de bom grado numa censura social apontada aos que, em forma tentada, se desviam da tão estabelecida norma. Podemos senão questionar-nos, aquando do inevitável regresso destes aventureiros à amálgama indiferenciada: Que futuro teremos quando deste grupo emergirem os decisores da sociedade? Quando para eles forem tomadas decisões e quando se virem eles próprios responsáveis pela educação de uma nova geração?

Porque não pensaríamos de tal forma afrontar os nossos próprios pares sem qualquer fundamento, avançamos uma lista (não exaustiva) das principais falhas que julgamos poder apontar à nossa geração. O seguinte pretende ser uma chamada de atenção para a normalização que hoje muito se faz sentir.

A cultura dos direitos:

Talvez a génese deste mal. Fruto de um paradigma educacional gravemente deficitário, baseado excessivamente em recompensa em detrimento de castigo, deparamo-nos com uma geração criada sob a ilusão de que tudo pode ter sem para tal se esforçar, mal acostumada a confundir privilégios com direitos.

Não há que assegurar entrada na faculdade - a isso todos temos direito. Não há que merecer um emprego - todos a um temos direito, assim como a elevados salários e curtas horas de trabalho. A cultura perpetua-se: ao longo da vida, em várias dimensões, sentimo-nos detentores do direito tanto a ricas recompensas como a não mais que leves esforços.

Certo é que estes aparentes direitos, mais cedo ou mais tarde, impreterivelmente se revelam uma ilusão. Até lá, no entanto, a larga maioria destes jovens, alheada desta realidade, alicerça em falsos pretextos um malfadado futuro.

A cultura do fracasso/a falta de objectivos:

Do ponto anterior advém uma necessária degradação do valor do esforço, que se torna num penoso e dispensável caminho para o conforto. Dando, desta forma, tudo aos nossos filhos imediatamente, deixamo-los com pouco a conquistar e sem ambição de o fazer. Cria-se um enorme grupo de orgulhosamente medianos, acomodados (resignados) ao seu inflacionado dote de direitos, desligados da busca de um qualquer relevante propósito.

De facto, uma gritante vicissitude deste grupo é a sua marcada falta de objectivos. Face a todos estes incentivos desalinhados, a busca do sucesso fica apenas para aqueles que em si próprios a encontram, os demais tão profundamente dela alheados que não só não a praticam, como tampouco a entendem - segue naturalmente que não a valorizem. Da desacreditação do sucesso até à glorificação do fracasso vai um curto passo que é actualmente dado com alarmante frequência, na maior das normalidades - falhar deixou de ser mau, e falhar sofisticadamente (pública e orgulhosamente) tornou-se trendy.

O todo acima do indivíduo:

Um final, mas não menos importante ponto é o da cultura do todo acima do indivíduo à volta da qual grande parte da nossa interacção social se encontra montada. De facto, uma análise dos valores basilares da sociedade em que nos inserimos revela uma clara submissão das opiniões ou comportamentos individuais aos colectivos - a democracia é uma manifestação disso mesmo, e a sua propensão para transbordar da dimensão de organização política, frequentemente com dúbia justificação, constitui sintoma e causa de uma latente doença social.

Não poderemos dizer que esta tendência seja exclusivamente da responsabilidade da nossa geração - é, de facto, uma obra tanto nossa como dos que nos antecederam. Somos nós, no entanto, quem mais com ela sofremos.

O advento das redes sociais e demais cultura de informação imediata permite actualmente uma constante comparação do próprio com todos os outros - de mão dada com a supremacia do todo, gera-se uma eficiente e preocupante convergência para uma qualquer norma. Jaz no ser humano, é certo, uma intrínseca vontade de sobressair face aos seus pares. A forma como a nossa geração se procura afirmar, todavia, sofreu uma importante mutação - não procuramos sobressair pela diferença, mas sim pela conformidade. A busca de identidade não é hoje mais do que uma competição pela maior proximidade da norma.


Hoje mais que nunca, o habitual tornou-se sinónimo de bom, um fácil albergue que todos procuram. Uma vez acolhidos, os clones juntam forças neste verdadeiro reduto da indigência - apoiados na maioria que constituem e na vindicação social de que usufruem, vivem numa constante orgia de normalidade, reforçando o seu gosto pela pertença à absoluta banalidade e desdenhando os nómadas que ousam demarcar-se de tal coio. Acrescenta-se um preocupante facto: além de homogéneo, este grupo demonstra-se pobre de espírito, simultaneamente entitled e sofrível - iguais, à imagem de algo medíocre. No contexto social em que vivemos, a acção desta maioritária máquina anti-indivíduo é infame de facto.

Vivemos não só neste esquema, mas nele crescentemente - a caminho da estandardização pela nossa própria mão (sem recurso a um laboratório). Tem, adicionalmente, um pouco de eugenia social: os homogéneos, cingidos por escolha ao seu pequeno domínio mental, nele estagnam e deixam aos que escapam à norma o poder de os iludir e influenciar. De facto, o panorama actual seria senão excelente palco para uma nova distopia essencial, onde os poucos, consciente e crescentemente superiores aos muitos, controlam a norma social e constroem, sob o véu da democracia, uma ditadura política e social agenciada pelas massas. Queremos, num regime democrático, uma maioria não só similar entre si, mas também facilmente moldável?

Marcado em:

0 comentários

Deixar um comentário