Francisco Fráguas Mateus


Faculdade de Direito, UL

"Que a loucura é, como tantas outras, uma questão de maioria."
- Mário Sá Carneiro

O Ponteiro do Relógio

O ponteiro do relógio bate relembrando-me que o tempo não é infinito e que altera, inevitavelmente, a minha própria pele. Abro um livro e procuro nas suas palavras uma forma de conquistar o meu tempo, conhecendo esta maneira doce e protegida que é passar pela vida e pelo tempo suavemente a pensar.

Tento retirar da ciência aquilo que, ao quando em vez, não tenho coragem de retirar da própria vida. Relembro-me (por mero contraste) que a poesia continua a existir sempre disponível para me elucidar que a vida é feita, como a própria palavra indica, para ser vivida, para ser sentida.

A questão é: como é que se vive, realmente? Pensando ou sentindo? Se for sentindo, o que nos garante que não seja, essa arte que é o sentir, uma forma e um produto da nossa condição de existir, que é o estar a pensar?

Coíbo-me de responder a estas perguntas tão interessantes quanto inúteis e tento viver. De facto o tempo passa, o ponteiro bate, os sinos tocam, os toques de intervalos soam nas escolas (e eu de repente já nem esse toque tenho), a pele envelhece, os pais morrem, os filhos crescem e com esta matemática toda que é o mundo, a vida passa também.

Há quem perca tempo a estudar a velocidade do tempo, as suas características, a forma como este se relaciona com a luz, o caminho pelo qual se atinge a velocidade da luz, tentando encontrar a fórmula matemática perfeita que o descreva, que o entenda. Há quem perca tempo, não perdendo tempo a estudar o que é o tempo, mas perdendo-o das mais diversas e imaginárias formas. Esquecem-se de reconhecer aquilo que a poesia nos ensina: que a vida é feita não para pensar nela sob as mais diferentes égides e perspectivas, mas que deve ser sentida!

Arre, que o tempo passa e pouco fica para contar, a não ser a meia dúzia de conquistas de coisas que acabamos por conhecer e entender (porque será sempre meia dúzia comparada com a infinidade de coisas que há neste mundo para conhecer). Não nos esqueçamos de sentir. Porque no fim... Aliás, sem medo e com coragem, porque depois da morte o que resta desta vida são aqueles com quem nos cruzámos e que amámos, o que vimos, ouvimos e sentimos.

O que nos resta são os outros. O que nos resta são aqueles que nos fazem existir, rindo (aí sim) infinitamente, abraçando-nos calorosamente. O que fica são aqueles que amamos, (sim!) eternamente, que perduram além do corpo e da matéria, que restam na memória e que pela felicidade das histórias contadas e partilhadas perdurarão em memórias futuras. Aí sim, encontramos a fórmula da eternidade que é sentir e para isso não são necessários livros, nem ciências, nem lógica, nem raciocínio.

Basta pensar que o tempo voa e é finito, que a nossa existência física e material está sujeita a uma condição de tempo, que a poesia existe para nos relembrar que a vida faz jus à sua própria existência quando sentida e partilhada.

O que fica será sempre o que sentimos naquele dia que nos foi tão especial, naquela tarde que nos foi tão agradável, naquela noite que foi tão nossa, naquele momento que acabou mas que no fundo será eterno na nossa memória.

A ciência, a filosofia, a lógica são deveras importantes. Progridem a condição do Homem como espécie, aperfeiçoam-na, dão-lhe mais tempo de vida, retirando-o também. Por favor, não nos esqueçamos de sentir porque não haverá fórmula mais real, útil e necessária do que esta: a eternidade que se atinge na vida quando se existe, simplesmente sentido algo de coração cheio, com emoção.

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1 comentários

  1. Extraordinariamente bem escrito, de uma delicadeza poética e sentida, parabéns ao Francisco por ter uma alma tão gentil. Com passagens e pensamentos lindos, é um prazer ler e reler este seu texto! " O que fica são aqueles que amamos, (sim!) eternamente,

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