Miguel José Monteiro


Engenheiro Biomédico, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)

"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it"
- Evelyn Beatrice Hall

O Fenómeno Trump e o Partido Republicano

Parece que está confirmado que Donald Trump será mesmo o nomeado do Partido Republicano nas eleições gerais para Presidente dos EUA. De certa forma, é surpreendente. Por outro lado, nem tanto. A meu ver, para se perceber realmente o que se está a passar nas primárias Republicanas deste ano, o que alguns estão a chamar “Fenómeno Trump”, é preciso entender primeiro a evolução do historial ideológico do Partido Republicano nas últimas décadas e a forma como Donald Trump encaixou que nem uma luva numa grande parte do eleitorado Republicano.

É um facto que o sistema partidário e político americano nunca esteve tão deslocado à Direita, tanto economicamente como socialmente. E isto aplica-se a ambos os partidos principais, Democrata e Republicano. Veja-se, por exemplo, o Partido Democrata e a questão de Bernie Sanders: um social-democrata, que aqui em Portugal poderia muito bem estar sentado nas bancadas de um PSD, foi totalmente encostado à extrema-esquerda nos EUA. Este alinhamento à direita tem vindo a crescer desde a presidência de Ronald Reagan e do crescimento do neo-liberalismo nos EUA. O Partido Republicano tem vindo a ser, historicamente, um partido com uma visão economicamente liberal, baseada em baixar os impostos, principalmente para os mais ricos e para as grandes corporações, e cortar despesa do Estado (curiosamente, nunca no orçamento da Defesa, que aumenta sempre).

A questão é que estas medidas per si não ganham eleições, pois não atraem o eleitorado comum americano. Assim, o Partido Republicano tem-se esforçado cada vez mais em por de parte a discussão económica e das medidas em si para se focar em assuntos do foro social. Ao longo dos anos, os Republicanos têm-se tornado cada vez mais socialmente conservadores e têm procurado associar-se a ideais socialmente discriminatórios, que agradam a maioria do seu eleitorado: cristão evangélicos, ultra-nacionalistas, racistas, etc. É nesta dicotomia que o Partido Republicano, no geral, se posiciona: às grandes corporações, agradar economicamente através de um posicionamento liberal; à população, agradar socialmente com base numa ideologia conservadora.

Tanto Democratas como Republicanos têm ainda outra estratégia, que se baseia em procurar nomear sempre nas suas primárias um “político da casa”. A “casa”, que no fundo corresponde ao grupo de políticos influentes que representam a base do partido, é chamada o establishment. Em todas as eleições, surgem outsiders a concorrer para ser o representante Republicano nas presidenciais americanas e o establishment do partido faz sempre a máxima pressão para que estes outsiders não tenham qualquer tipo de expressão pública e mediática, acabando sempre por ganhar um político da sua confiança e que o establishment saiba que vai representar os seus interesses. Aconteceu isso com Romney em 2012, McCain em 2008, e por aí fora.

E agora é que a história fica interessante. É que este ano isso não vai acontecer. Apesar de os Republicanos terem feito tudo o que estava ao seu alcance para que Donald Trump, a definição pura e dura de um outsider, não ganhasse as primárias, parece que este vai mesmo ser o nomeado Republicano. Recordemos que Donald Trump foi: amplamente criticado em público pelos próprios membros do Partido Republicano; Ted Cruz e John Kasich, os últimos a desistir da corrida das primárias, aliaram-se temporariamente com vista a forçar uma Convenção Dividida; a Fox News, o tronco Republicano nos media americanos, fez várias vezes propaganda anti-Trump; entre outras situações.

Não me interpretem mal, eu não sou de forma nenhuma apoiante de Donald Trump e sou totalmente a favor destas medidas do partido Republicano para tentar bloquear a sua nomeação. E cheguei mesmo a pensar que conseguiriam. Só que o fenómeno Trump não é nada mais nada menos que o Partido Republicano a provar do seu próprio veneno. Porquê? Lembram-se de ter falado dos Republicanos adoptarem uma estratégia de conservadorismo social discriminatório? Ora, Donald Trump é o apogeu desta estratégia. Economicamente é semelhante a qualquer Republicano, basta analisar minimamente as suas propostas, mas socialmente é um Republicano em esteróides sem qualquer tipo de filtro. E ainda por cima, carismático e famoso.

Donald Trump apoderou-se completamente dos media americanos para vomitar a sua retórica xenófoba, nacionalista, sexista, racista, discriminatória, e tudo o que nós já sabemos, disfarçado de politicamente incorrecto. Ver um comício do Trump é simultaneamente nojento e divertido: a confiança enorme com que o sujeito diz mentiras sem qualquer vergonha é assustadora, a forma como consegue entreter os apoiantes, inclusive fazer rir, baseando-se em gozar com os seus opositores é do mais repudiante que existe. E agora, curiosamente, o Partido Republicano já pôs o establishment a apoiar Trump, nomeadamente Paul Ryan, Rick Perry, Bob Dole, John Boehner, entre outros; e isto sim, é de rir.

Mas a boa notícia é que Donald Trump não ganha as eleições gerais. Pelo menos, eu não apostaria o meu dinheiro nisso. Muito do mediatismo e suposto sucesso que este tem deve-se à intensa cobertura jornalística que recebe e não propriamente ao seu eleitorado ser grande. Do outro lado há, sim, uma enorme massa de pessoas que não permitirão a sua vitória e votarão Democrata em Novembro. Se eu pudesse, seria uma delas.

Marcado em:

0 comentários

Deixar um comentário