Salvador Luz


Faculdade de Direito, UL

"Those who dare to fail miserably can achieve greatly."
- John F. Kennedy

O Dia Depois de Amanhã

Amanhã terá lugar, como sabemos, um dos mais importantes acontecimentos da época em que vivemos. As eleições presidenciais norte-americanas são sempre alvo de grande interesse e especulação por parte do mundo inteiro, essencialmente por se tratarem das eleições para o cargo mais poderoso do país mais poderoso do mundo. É seguro dizer que o Presidente dos Estados Unidos é a pessoa que mais bem posicionada se encontra para poder influenciar o rumo dos acontecimentos globais e a História do mundo como o conhecemos.

Mas este ano tudo muda. Acontece que este ano há uma razão que torna a eleição de amanhã ainda mais decisiva e importante do que costuma ser, tornando-a, talvez, a eleição mais determinante desde que há registo: o facto de o resultado confirmar ou infirmar o rumo ou a tendência populista que se tem verificado atualmente na cena política. Uma eventual vitória de Donald Trump seria a derradeira confirmação de que os movimentos demagógicos, nacionalistas, antiglobalização, xenófobos e divisórios que têm vindo a surgir vieram para ficar. Significaria que o Brexit não teria sido apenas um acidente isolado na História, mas apenas o primeiro de vários que conduziriam a um maior isolamento entre os países, a um maior clima de desconfiança, a um menor cosmopolitismo e espirito de tolerância e de globalização, essencialmente, a um retrocesso civilizacional. Significaria que o populismo fácil, daqueles que prometem tudo arranjar e tudo conseguir solucionar teria, mais uma vez, sucesso nos ouvidos e mentes dos povos. O que se sucederia a seguir em França, com Marine Le Pen, na Áustria, com Norbert Hofer, e nos Países Baixos, com Geert Wilders? O que poderia mesmo vir a acontecer ao futuro da já abalada União Europeia?

Para além da importância histórica destas eleições, existe também a particularidade, algo cómica, da personalidade de Trump: um milionário excêntrico e egocêntrico que se decidiu oferecer o derradeiro capricho – o de candidatar-se a Presidente dos EUA. Não deixa de ser irónico que um homem que tenha passado grande parte da sua vida a explorar os trabalhadores e aqueles mais fracos, que tenha tentado contornar o sistema (pelo menos o fiscal) para benefício e enriquecimento pessoal, que nada de substancial tenha feito em prol de ideais políticos e sociais, consiga agora acolher o apoio daqueles que se sentem “deixados de fora” por parte da sociedade, daqueles que não se conseguem enquadrar no atual sistema e que anseiam por uma mudança, por alguém que seja capaz de tudo solucionar e tudo “tornar grande de novo”. Representa e improvisa, não tem qualquer domínio real sobre os assuntos. Parece “brincar” com o eleitorado.

O que torna estas eleições ainda mais singulares é o contraste gigantesco entre as personalidades, percursos e propostas de ambos os candidatos. Hillary é descrita por aqueles que trabalham consigo como disciplinada, dedicada, focada, rigorosa exigente, uma policy wonk com uma paixão verdadeira pelos assuntos. Não sendo preciso uma investigação muito aprofundada, Trump é visto como prepotente, errático, impulsivo, com um ego imenso alimentado por anos de reality shows em que seria o centro das atenções.

Hillary Clinton encontra-se na arena política há mais de 30 anos. Ao lado do George W. H Bush, é considerada por muitos a política com mais experiência de sempre, tendo sido Primeira-Dama do Arkansas, Primeira-Dama dos Estados Unidos, Senadora pelo Estado de Nova Iorque, e Secretária de Estado sob a liderança de Barack Obama.

Mas a sua atração pela política vem de muito antes. Durante os anos em que estudou Ciência Política na Wellesley College, participou em associações políticas e estagiou no Congresso dos Estados Unidos, tendo mais tarde trabalhado na campanha presidencial do Governador Nelson Rockefeller. Foi convidada a discursar na cerimónia de inicio de ano (quebrando um precedente, tendo sido a primeira vez que um aluno tinha sido convidado), onde terá proferido a famosa frase “A política é a arte de tornar possível o que parece ser impossível” e onde recebeu uma ovação em pé de sete minutos. Tendo depois seguido para a Faculdade de Direito de Yale, foi editora da Yale Review of Law and Social Action, e trabalhou no Yale Child Study Centre, onde colaborou em pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças, tendo mais tarde estudado no âmbito de uma pós-graduação as implicações das investigações no âmbito do Direito. Ao longo do curso foi também prestando ajuda legal pro bono em hospitais e aos pobres. Depois da licenciatura, trabalhou como advogada no Children’s Defense Fund, e participou no processo de impeachment que se iniciou durante o Watergate e que culminou na demissão de Nixon. Trabalhou e colaborou em muitos outros projetos de cariz político e social, que não cabe agora referir.

Para além da preocupação sempre presente com assuntos sociais, em especial no que toca às mulheres e às crianças, a verdade é que ao lado de Bill Clinton, primeiro no Estado do Arkansas e depois na Casa Branca, Hillary ficou a conhecer como ninguém o funcionamento da política americana e o peso das escolhas que recaem sobre o presidente. Reconhecendo a inteligência e o potencial da mulher, Bill disse durante a sua campanha presidencial de 1992 que votando nele “you get two for the price of one”, e confirmando esta afirmação confiou à mulher, logo no primeiro ano da sua presidência, a gigantesca tarefa de instituir um plano nacional de saúde, algo que veio a falhar por pressão de conservadores e da indústria dos seguros de saúde, entre outras razões.

Como Secretária de Estado, e como número três na Administração de Obama, Hillary fez mais uma vez parte do núcleo duro da presidência, tendo acompanhado de perto todas as decisões principais e tendo viajado para cerca de 112 países, algo nunca antes feito por qualquer outro Secretário.

Mas, verdade seja dita, o seu currículo, apesar de impressionante, está longe de ser impecável. Como manchas no seu percurso político estão o plano de saúde falhado, o voto como Senadora a favor da invasão do Iraque, o ataque à embaixada americana em Bengasi sob o seu mandato e agora, o tão falado escândalo dos e-mails, que terá resultado do seu uso de um servidor pessoal para e-mails de trabalho. Existirão também suspeitas sobre eventuais conflitos de interesse entre os cargos que exerceu e a organização de caridade criada pelo seu marido, a Clinton Foundation. Cabe ao leitor avaliar o peso relativo destes factos.

Toda a campanha, que tem vindo a durar há mais de ano e meio, deixa-nos com a sensação de que temos estado a observar uma grande temporada de um reality show: uma sucessão quase diária de escândalos e revelações, um nível de ameaças e agressões verbais crescente, e acontecimentos caricatos como o desmaio em público de Hillary por pneumonia ou a revelação de gravações de teor sexual proferidas por Trump ainda em 2005, ou mesma a presença a convite de mulheres que alegam ter tido casos com Bill Clinton nos debates presidenciais.

Ontem, Hillary Clinton parece ter retomado a ligeira vantagem que teria há umas semanas, depois de o Diretor do FBI James Comey, num plot twist digno de um thriller político de Hollywood, ter, a menos de 48 horas das eleições, anunciado que afinal a reabertura da investigação dos e-mails não teria produzido resultados relevantes, e que Clinton estaria “clear” de qualquer responsabilidade criminal. Apesar da diferença de qualidade e competência gritante, é verdade que nenhum dos candidatos é perfeito.

No entanto, dormiria muito mais descansado se soubesse que dia 1 de janeiro de 2017 os códigos nucleares seriam entregues a Hillary Clinton.


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