Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Mateus e a Pedra Filosofal

Dei com ele sentado à porta na sua cadeira, estava com a postura característica de quem já muito viveu e muito já viu. Contemplava a paisagem de Vila de Rei com os seus olhos sábios, mas já gastos. Uma espécie de brilho que se vê nos olhos das pessoas mais velhas, como se cada fosse uma dádiva. Disse-lhe olá e ficámos assim. Cada um na sua. Não precisávamos de mais, as palavras ainda não tinham finalidade. A vida separou-nos por uma breve hora a jogar dominó.

Quando voltei lá para fora dei com o Sr.Mateus a fumar. Este senhor tem 97 anos e fuma um maço de tabaco por dia. Decidi que ia fumar um cigarro e fazer-lhe companhia. Estava, sem dúvida, intrigado pela sua maneira de estar impenetrável. De quem parece não pedir nada de ninguém, desde que não o chateiem. Uma espécie de tolerância intrínseca de quem reconhece que somos felizes quando fazemos aquilo que queremos, desde que não magoemos os outros. Muita gente toma isto por teimosia, eu não. Vejo-o como uma forma respeitosa de tratar os outros, sem deixar de ter respeito próprio. Tinha que conhecer melhor este homem, pessoas destas são uma raridade nos dias que correm. Ostentava uma aura de desapego a tudo o que o rodeava, sem, no entanto, cair na apatia. Não era apático. Parecia de confiança, parecia que cumpria quando dava a sua palavra.

Sacou do seu primeiro cigarro e eu acompanhei-o. Durante este primeiro cigarro falou-me da sua vida rotineira, a que horas se deitava, o que fazia. Como todos os fins-de-semana ia passar a casa de um dos seus sete filhos. Todos tinham singrado na vida à sua maneira, e constatava-o de uma forma muito orgulhosa.

Sacou do seu segundo cigarro e eu acompanhei-o. Desta vez falámos de como Vila de Rei tinha evoluído com os tempos. Explicou-me que a casa abandonada que prendeu a minha atenção a caminho do lar tinha sido em tempos antigos um lagar. Naquela terra, pelos vistos, a Oliveira cobria muita parte da paisagem . Mais uma vez, via fidelidade neste centro de Portugal. As raízes das pessoas desta terra, à semelhança das das oliveiras, são fortes. Uma coincidência se calhar, porém não a tomei como tal.

Sacou do seu terceiro cigarro e eu acompanhei-o. O seu elixir ( ironicamente a marca de tabaco que fuma) era necessário para a manutenção da sua vida. Os seus colegas de lar brincavam : “ Quando tirarem o tabaco ao Mateus, dois dias depois ele morre”. Desta vez falámos sobre a sua mulher, como a tinha conhecido e como quando se tornara viúvo há 10 anos. Contou-me o quanto sentira a falta da sua companheira de vida, e que agora mesmo pensando nela frequentemente já se tinha adaptado.

Aqui percebi que a sua postura representava na perfeição a sua maneira de ser. Era fiel a si mesmo, os seus olhos não enganavam. Como eu gosto destas pessoas. Durante os nossos cigarros pensativos à modo de Eça, aprendi novamente uma das lições mais importantes que o mundo tem para ensinar: vive e deixa viver.


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