Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Mariola

É engraçado como momentos que nos são tão marcantes, às vezes, não nos ficam totalmente na memória. Não nos lembramos do dia em que ocorreram ou com quem estávamos, no entanto, o acontecimento continua a ter para nós um enorme significado. A experiência e o que retirámos dela permanecem, mas os pormenores triviais não, parece que nos focámos no que realmente era importante, descurando o acessório. Este encontro na Chamusca durante a Missão País foi, sem dúvida, uma dessas situações.

Não me lembro do nome da senhora, já tentei muitas vezes relembrar-me, mas, infelizmente, sem sucesso. Sei, com certeza, que era alentejana, isto, pelo facto, de me ter chamado mariola, termo cujo o significado depois me foi explicado por uma amiga minha de Beja que me acompanhava e que percebia a gíria. Era uma mulher que já estava muito magra e quase não se conseguia mexer, sofria de esclerose múltipla, e como tal, via de dia para dia os seus movimentos cada vez mais restringidos. Não conseguia falar ou andar, e comer era uma autêntica obrigação. Assim sendo, o contacto que tive o prazer de ter com ela foi à base da escrita, também esta já muito debilitada, e de olhares. As palavras que escrevia, muitas das vezes, eram irreconhecíveis. Escrevinhava num caderno que usava para as conversas que tinha com a filha, a única pessoa que a visitava, e neste observava-se uma progressão da sua doença muito clara. As primeiras folhas, perfeitamente legíveis, deram lugar, quase no final do caderno, a traços sem nexo que, com muito esforço e imaginação, se assemelhavam a letras. Tinha uns olhos azuis muitos vivos escondidos por detrás de uns óculos simples e de um corpo que já não lhe respondia. Via-se que gostava da nossa presença, mas que, ao mesmo tempo, via nela um incómodo devido ao esforço sobre-humano e doloroso que necessitava para continuar a interação. Tive no seu quarto talvez durante uns quinze minutos, mas foram mais do que suficientes.

Os meus olhares e as perguntas infinitas que lhe fazia eram sempre respondidas com um sorriso. Fui, aliás, acusado de ser traquina (a tradução de mariola de alentejano para português), se calhar, por ser tão inoportuno. Perguntei-lhe sobre tudo; de onde era, o que tinha feito como trabalho, se tinha casado e, inclusive, como tinha conhecido o marido. Fiquei impressionado com a alegria com que nos desvendava a história da sua existência. Partilhava connosco um sentimento de felicidade genuíno, de alguém que se estava novamente a sentir humano depois de confinado apenas à sua mente. A amargura não a tinha invadido, mesmo depois de lhe ter ocorrido um infortúnio daqueles. Isso também se via nas fotografias espalhadas pelas mesinhas de cabeceira com pessoal do lar, ostentava, mesmo na sua cadeira de rodas, um sorriso enorme como vi poucos.

Ensinou-me o significado de gratidão. Que por qualquer problema, por maior que este seja, há mais coisas pelas quais podemos agradecer. Tornou qualquer problema que tivesse completamente insignificante. Se uma mulher com esclerose múltipla presa a uma cama fora da sua terra arranjava motivos pelos quais se sentir grata e feliz, quem era eu para não o fazer também. Saí do seu quarto com um sorriso. Agora, quando dou por mim a pensar em problemas banais lembro-me dela, porque da sua cara alegre e do seu sorriso contagiante, desses nunca me vou esquecer.

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