Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Magda, a Prisioneira de Azkaban

As prisões invisíveis, a par do sentimento de pena, são das coisas mais repugnantes que o ser humano tem para oferecer. Ainda me espanto que como, apesar de conseguir ser tão bom, o Homem consegue ter comportamentos tão desprezíveis. Pior que estar numa prisão invisível, muitas vezes criada por nós próprios para nós mesmos, é está-lo por injustiça. Magda era uma destas pessoas. Presa por umas grades que ao olhar menos atento parecem não existir, mas que condicionaram toda a sua vida.

Entrei em sua casa. Uma casa bonita e simples. As paredes estavam forradas por quadros feitos pelo casal. Inclusive, um quadro feito por ele que a representava e que foi motivo de um riso desconfortável da parte dela. Via-se que gostavam muito um do outro. Eu e mais dois amigos tínhamos sido convidados a ir lá tomar um café depois de jantar. O benny tinha jantado com esta senhora no dia anterior, mas eu ainda não a tinha conhecido. A casa ficava a 30 metros do sítio onde estávamos hospedados.

A conversa foi uma conversa de trivialidades, não foi das palavras que tirei a lição que aprendi com esta senhora. Foi sim da sua maneira de estar, da sua postura, da sua linguagem não verbal. Conheci uma mulher doce, de quem a doçura adveio de ter sido mal tratada. Parece paradoxal que a bondade de alguém possa brotar da maldade a que foi sujeita. Reparo, também, o quão engraçado é que as pessoas mais doces que conheci foram aquelas a que a vida foi mais injusta. Este paradoxo do bem, tão humano, mas logicamente tão falacioso, faz-nos perguntar como o Homem tão intelectualmente superior se consegue transformar numa besta. Na maioria das vezes, o mal gera mal, Magda era a excepção.

A história da senhora não a soube por ela, soube-a pelo meu amigo. Numa terriola em Portugal, ser-se mãe solteira é motivo de exclusão. Tão fácil meter as pessoas em sacos, assim ninguém tem de se preocupar. Julga-se para não se ser julgado. Maldade gratuita de quem considera a exclusão uma pena apropriada. O castigo não é proporcional ao crime (se se pode seque chamar crime a ser-se mãe solteira, como se fosse responsabilidade total dela). Magda que continua crente, até a comunhão lhe foi negada. Os filhos renegados na catequese, nem sequer podiam ser baptizados. Gostava de perceber a razão de dizer que existe um Deus bom e omnipotente e nós, meros humanos, andarmos a fazer justiça em nome Dele. Para que não se caia na hipocrisia, isto implica uma superioridade moral demasiado difícil de atingir e de uma raridade enorme. Estas pessoas existem, mas à semelhança do paradoxo em cima, observamos aqui outro, os “santos” não são pessoas de julgar.

Tentei então perceber qual o ciclo de vida do bem. A experiência ensina-me que o bem, por vezes, gera mal, e que o mal gera mal, e que este mal vem de um sentimento de ingratidão de quem o pratica. Assim, a certa altura no ciclo, o mal entra em feedback positivo, e o bem começa a desaparecer. Não há reprodução. A única maneira de o regenerar é através da gratidão e de responder ao mal com bem. Foi isto que Magda me ensinou. A sua prisão ensinou-lhe que o mal é para ser respondido com o bem, ponto final parágrafo. A sua doçura ensinou-me mais uma lição.


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