José Muller e Sousa


Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH, UNL (Sciences Po Paris)

"Us, and them / And after all we´re only ordinary man"
- Roger Waters

Hoje em Calais

Hoje em Calais, Norte de França, inicia-se o processo de demolição de um campo de refugiados constituído por 9 mil homens, 2000 crianças (das quais 1300 não acompanhadas) e 500 mulheres. A fila para entrar nos autocarros que os irão recolocar noutros campos espalhados por França, já se encontra formada desde as 5 da manhã. Até agora tudo decorre sem incidentes, num primeiro dia que se estima ser o mais pacífico. Até ao final da semana, este processo tem de estar acabado, e a “Jungle” extinta.

      I

A Jungle – assim batizada por residentes e não residentes – existe desde Setembro de 2014, quando já contava com cerca de 1300 refugiados vindos da Eritreia, Etiópia, Síria, Afeganistão ou Sudão. O local deste acampamento, Calais, é o ponto da Europa Continental mais perto das Ilhas Britânicas – o tão desejado “UK” – situado a sensivelmente 40 km do Porto de Dover, Reino Unido.

A diferença deste para os restantes campos de refugiados espalhados pela Europa é que a Jungle, não sendo reconhecida pelo Estado Francês e, consequentemente por nenhum outro Estado, nem mesmo pelas Nações Unidas, constituiu um campo de refugiados ilegal.

Na prática, isto significa que o financiamento do campo tem sido inteiramente feito por ONG´s – organizações não-governamentais - que lá operam, isto é, toda a comida, roupa, cuidados médicos, informações sobre processos de asilo ou “escolas”, são fornecidos por estas organizações cujo maior “asset” são os seus voluntários.

Têm sido estas ONG´s – como o L´Auberge des Migrants ou o Care 4 calais - que têm garantido as cerca de 20/30 tendas montadas por dia, para os 400 novos refugiados que chegavam a Calais por semana. Tinham a responsabilidade de dar um tecto (de pano) a homens feitos, num descampado onde a lei que impera é, em último caso, a do mais forte.

      II

Pelo L´Auberge des Migrants passaram vários portugueses. A sua missão, encarada como “trabalho”, era a de receber os novos inquilinos da Jungle que vinham do Sudão ou Afeganistão e de outros destinos em conflito a Sul e Este da Europa.

Estes voluntários tinham de aprender as artes da montagem de tendas, e ao fim de 1 dia tornavam-se profissionais. Todas as manhãs, às 11 horas, formavam-se as equipas que iam com os “newcomers” escolher o espaço onde construir a tão aguardada tenda. Sem querer entrar em detalhes, imagine-se apenas o sentimento de confusão e gratidão de quem vinha do lado de lá, e um “don´t worry ma friend, if you need anything talk with us” dito da forma mais sincera, do lado de quem ajuda. Tudo isto era belo, sobretudo pela forma como não se caía em sentimentalismos.

A vida na Jungle era dura. A malta que por lá passou, que o diga de sua justiça... Saltando o pormenor dos ratos, falta de electricidade ou os 500 banhos disponíveis por dia (o que dá uma média de 1 banho a cada 20 dias), o que realmente sobressai naquele campo é a frustração.

Com o único objectivo de entrar (ilegalmente) no Reino Unido, a malta que já lá está “presa” há 2, 4, 7, meses, 1 ano, 1 ano e meio, quebra facilmente. Sem nada para fazer durante o dia, vai-se perdendo o espírito e a esperança. O que mantém a chama ainda acesa é o sonho de pisar solo Britânico. Aí poderão trabalhar ou ir à escola, e o mais importante, será o momento em que poderão reunificar as suas famílias. Porque mal adquirem a cidadania britânica, estas famílias que ficaram nas zonas de guerra são imediatamente aceites e trazidas para o Reino Unido. Imagine-se a pressão destes homens, cujo único objectivo é saltar a fronteira para salvar a família.

      III

Hoje é o início do processo que vai pôr termo à Jungle. Boas notícias? Nem por isso...

Primeiro, a Jungle não é desejável para ninguém - moradores de Calais, polícia, camionistas, e claro para os próprios refugiados. A Jungle não é casa de ninguém; apenas o último “checkpoint” antes destes refugiados encontrarem segurança no Reino Unido. Os próprios moradores desta selva odeiam a Jungle. Pior lugar, só mesmo os sítios de onde fugiram.

Mas, se por um lado vão para campos com condições, por outro mata-se o sonho de reconstruir as suas vidas no Reino Unido, onde muitos já lá têm familiares e amigos, ou falam a língua. É uma grande pancada psicológica. Mais uma.

Segundo, mais uma vez esta malta é obrigada a deslocar-se, sem saber muito bem para onde. No outro dia vi um post no facebook de um amigo Sudanês que vive na Jungle, que dizia “how come in the whole wide world I don't have a place to be safe and may be build some dreams???”. Segurança e perspectivas de futuro, era o que ele pedia. Um sítio para recomeçar a sua vida. Mais uma vez, este querido amigo – como tantos outros – vê a sua vida adiada.

O meu último texto falava sobre os “sem-Estado - pessoas sem documentos e que por isso estavam sujeitas às maiores atrocidades por não estarem protegidas por nenhum Estado. Mal eu sabia quando escrevi esse texto que iria ser confrontado com esta precariedade na vida real. Pessoas que não têm casa, nem são aceites em lado nenhum no Mundo.

Concluindo. Escrevi este texto pois senti uma enorme vontade e dever de contar o que se passa numa Jungle que irá deixar de existir no final desta semana. Como dizia um professor meu, se não há registos, é como se nunca tivesse acontecido. E é verdade. As pessoas precisam de saber da derrota política que este campo foi. O simples facto de ter havido pessoas a viver naquelas condições durante 2 anos foi uma derrota da humanidade.

Quer queiramos quer não, a crise humanitária dos refugiados faz parte da nossa vida. Mais cedo ou mais tarde vamos ser chamados a tomar decisões sobre estes assuntos, e para isso temos o dever de estar bem informados. Encorajo todos a informarem-se mais sobre esta que é a grande crise política e humanitária dos dias de hoje. Não sejamos ingénuos, mas sejamos sempre humanos.

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6 comentários

  1. Excelente reflexão!

  2. Que bom encontrar este texto! Obrigada por, escrevendo com cabeça e humanidade, contraria a crítica mal-disposta -tão frequente nestes "fóruns" de notícias . Bem haja!

  3. Textozinho tão feito ao Sistema, tão pobrezinho de conteúdos que nem o jargão oficialista lhe retira a roupagem medíocre patente a cada linha. Não basta escrever palavras da moda, como humanismo, que os problemas se resolvem, ou sequer ir fazer um passeio

  4. Exacto. Não sejamos ingénuos. Não sejamos ingénuos ao ponto de pensarmos que há lá duas mil crianças. A não ser que com 16, 17 anos o sejam, como é o caso entre muitos. E não sejamos ingénuos ao ponto de pensarmos que todos provêm de situações de guerra.

  5. Os refugiados a entrarem nos países de cultura ocidental é uma forma planeada de destruição dos povos oriundos da Europa. Porque diabo os países arabes "amigos dos refugiados" não os acolhem? Quem apoia esta invasão na imprensa faz parte do terrorismo jo

  6. Muito bom, excelente elucidação sobre o assunto!

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