Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Henrique e a Câmara dos Segredos

Algures numa das avenidas principais de Lisboa dorme um homem. Protegido por um simbólico S.Jorge, enquanto este, juntamente com a luz da rua, o ilumina. Estava frio, este senhor encontrava-se num saco cama e com uma manta por cima. Parecia-me só mais um senhor que vivia na rua. Apesar de serem todos diferentes, as suas histórias muitas vezes têm pontos muito comuns. Droga, álcool, doença mental, circunstancias injustas da vida. Depois, vem o comodismo à liberdade aparente que viver na rua parece dar. Em Lisboa, felizmente, só passa fome na rua quem quer.

Saí da carrinha com o saco que tinha para lhe dar. Não era nada de especial, uma mera ceia e um iogurte, mas o suficiente para aconchegar a barriga. Pensei que estivesse a dormir, disse-lhe olá, mas não estava à espera de resposta, já era tarde. Achava que ia deixar o saco a seus pés e ir-me embora. Respondeu-me em espanhol e percebi também que era cego. Virou-se, mas não me conseguia fixar. Sentia, no entanto, que me olhava, como se tivesse mantido a capacidade olhar, mas não de ver. Quando falei com ele, a sua atenção estava dirigida. Perguntei-lhe como tinha ficado cego. No seu espanhol arrastado percebi greve de fome. Pedi-lhe para repetir por considerar que provavelmente teria ouvido mal, mas recebi a mesma resposta. Aqui, fiquei reticente, contemplando que ia começar uma conversa com outro esquizofrénico também descompensado. Seria o terceiro nessa noite. Não sei porquê, apesar da estranheza do conteúdo da resposta, dei por mim a acreditar naquelas palavras. O meu ser lógico e cético engatou a primeira, e a minha credulidade caiu por terra. Objectivamente, seria pouco provável que aquilo acontecesse, portanto, até prova em contrário, seria mentira.

Quando volto à carrinha, refiro a resposta do senhor Henrique enquanto me ria. É-me confirmado que a história era verdadeira, pois o governo espanhol tinha entrado em contacto com a comunidade, supostamente. O senhor Henrique era um representante/chefe de uma farmacêutica na América do Sul, onde, pelos vistos, as coisas não eram feitas da maneira mais honesta, causando algum transtorno às pessoas. Não me disseram, no entanto, em que contexto isto ocorreu, também não perguntei. Henrique não conseguia pactuar com isto e fez várias greves de fome, que lhe provocaram a cegueira. Em Lisboa, tornou-se sem-abrigo, onde todos os meses há dinheiro a cair no banco e que ninguém vai levantar. Já passaram cerca de 15 anos creio. Costuma estar sempre por ali. Durante este tempo, o governo espanhol já lhe ofereceu alojamento e afins. Diz que não quer, que o dinheiro é sujo. Já passei por lá mais duas vezes, tinha desaparecido, provavelmente adoeceu.

Não faço ideia se a história é verdadeira, mas é irrelevante para as lições de que aqui tirei. Primeiro, os nossos valores são as coisas mais nossas que existem. Sem eles não somos nada. Se isso significa viver uma vida na rua, que seja. Peco por idealismo a mais, se calhar, mas sou miúdo, tenho desculpa. O senhor Henrique combateu o seu basilisco com as armas que tinha, não cedendo. Não há nada que valha a pena ter ou atingir se nos perdemos pelo caminho. A ser verdade, é, sem dúvida, inspirador. Vou confiar nas suas palavras, confiar na minha intuição, e, acima de tudo, confiar na natureza humana.


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