João Marinheiro


Jornalista TVI | Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH, UNL

"Good men, the last wave by, crying how bright their frail deeds might have in a green bay, rage, rage against the dying of the light."
- Dylan Thomas

Filhos da guerra. A infância perdida das crianças sírias

Foi um balanço que passou despercebido nos órgãos de comunicação social - não apenas em Portugal -, sem merecer atenções detalhadas nem devido escrutínio público. No mês passado, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) deu o alerta vermelho. Desde o começo das hostilidades, em Março de 2011 (os primórdios da "Primavera Árabe"), 3,7 milhões de crianças nasceram na Síria. Para que esta realidade seja servida de maneira ainda mais crua, fica a estatística directa e aterradora: uma em cada três crianças sírias nasceu durante o conflito, viu o seu crescimento interrompido perversamente, à mercê da violência, da morte e do medo constante. À mercê de bombas e de tiros, de doenças às quais não se conseguem defender porque não têm meios para se vacinarem. Destas, 2,9 milhões vivem no país natal, território desfeito, ruínas e escombros. As restantes 800 mil estão em estados vizinhos.

Além disso, 8,4 milhões de menores na Síria, cerca de 80% da população infantil, foram afectados pelos confrontos, quer dentro ou fora do país. Ou seja, oito em dez necessitam de ajuda humanitária. A verdade é que a guerra já criou 2,4 milhões de crianças refugiadas, sendo que mais de 300 mil nasceram enquanto tal. As Nações Unidas foram incapazes de contabilizar o número de mortes mas estimam que as vítimas deste grupo etário ascendam às dezenas de milhares. Um terço perdeu a vida na escola ou a caminho dela.

Mas o relatório não se fica por aqui. Como ressalvou Peter Salama, director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, estes menores "cresceram demasiado depressa e antes do tempo". Muitas tornaram-se soldados, recrutados à força pelos grupos armados envolvidos na guerra. Alguns com apenas sete anos. Submetidos a treino militar, combates, tarefas mesmo na linha de fogo. E no campo de batalha, com a própria vida em risco, terão sido também obrigadas a tirar vidas. Numa Síria sem leis nem espaço para os mais pequenos, há crianças que começam a trabalhar aos três anos de idade; raparigas submetidas a casamentos forçados, a maioria delas com pouco mais de uma década de vida.

Numa curta vida estritamente pintada por uma realidade que ninguém deveria conhecer, a aprendizagem, essa, também ficou pelo caminho. A frequência escolar atingiu os níveis mais baixos de sempre. Cerca de 2,8 milhões de menores no interior do país e 700 mil nos países vizinhos não vão à escola nem têm acesso a educação.

Existem 4,8 milhões de refugiados sírios actualmente. Metade deles são crianças, a maioria (dois milhões) vivendo em países vizinhos como Turquia ou Líbano, sob condições de pobreza e precariedade, apresentando igualmente sintomas de trauma ou outros problemas psicológicos. A escassos dias do 25 de Abril, que não nos esqueçamos e pensemos na liberdade e na normalidade saudável com que fomos brindados à nascença, nos valores democráticos e humanitários com os quais crescemos, sabendo que no mundo há tantos e tantos que não têm o mesmo destino.

Ainda não é tarde para salvar estes filhos da guerra. Por alguma razão a UNICEF intitulou a iniciativa, que abrange este relatório arrebatador, com a designação esclarecedora "No Lost Generation". Já não é possível devolver-lhes a infância que mereciam e nunca tiveram. Mas há tempo para construir-lhes um futuro e salvar esta geração.


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