Francisco Reis


Faculdade de Direito, UL

"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes."
- Ricardo Reis

Em Defesa do Humor

Todos nós, utilizadores de redes sociais, nos deparamos frequentemente com publicações que nos fazem ter um bocadinho de vergonha da raça humana. Escusado é dar exemplos, bastará ao leitor parar um bocadinho para eles lhe virem rápida e abundantemente à cabeça.

Hoje venho aqui dedicar um pequeno agregado de palavras a uma categoria de publicação socio-virtual que me incomoda particularmente: os ferozes ataques aos humoristas. Quantos casos não vimos já de pessoas que se revoltam com uma piada feita por um humorista profissional, recorrendo rápida e nervosamente às redes sociais para incriminar o monstro que a proferiu, como que numa ânsia de repor a ordem social e a paz.

É de facto “engraçado” que tanta gente que se considera fã de humor, que diz aprová-lo, seja nas suas expressões profissionais seja nas mais ocasionais e amadoras, que demarca o sentido de humor como uma qualidade estupenda em qualquer ser humano, depois, faça tudo isto cair por terra mal se sente incluída no sujeito duma piada. Nesse momento, de repente ter-se-á violado uma barreira invisível mas (aparentemente) sagrada e intransponível dos “limites ao humor”. Nesse momento, o que era antes louvável rapidamente sofre uma metamorfose transfigurando-se no mais vil ato, merecedor da maior das censuras no palco social. Como pôde sequer alguém ter a ousadia de incorrer em tal atrocidade?

O que tem mais “graça” é que estes nobres soldados da honra pública, que nos vêm proteger das vis ofensas do humorista supostamente desviante, são os primeiros a dirigir a este profissional, que nem sequer conhecem, afiados, desmesurados e totalmente desproporcionados insultos pessoais. Há até casos em que lhes dirigem ameaças de morte!

Evidentemente, que o problema não está na piada nem em quem a proferiu, mas sim no facto dos ofendidos terem interpretado como declaração séria aquilo que o humorista disse no exercer da sua profissão, facto que é, por si só, enigmático. Não terá esta malta ainda percebido que a actividade dum humorista consiste em fazer piadas? Ou já perceberam, mas no momento em que foi feita a declaração em causa, deu-se subitamente um fenómeno de amnésia que as fez esquecê-lo?

É pena que num mundo cada vez mais sério e cinzento, tão frequentemente se ataque aqueles que dedicam as suas vidas a fazer-nos rir. Não há piada que não ofenda alguém, pela simples razão de que não há humor sem objecto. Se a possibilidade de alguém se ofender impedisse os humoristas de atuarem, então perderíamos algo de muito valioso para a humanidade, algo que provoca em nós a expressão de uma felicidade pura, que estimula uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem para dar, o riso.

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