Francisco Guimarães


Colégio São Tomás | Treinador de Futebol

""Queres o espaço impossível, queres arder o que apagou, queres a escolha que passou. Mas tudo é o que tem que ser, tudo flui ou te faz crescer.""
- Tiago Bettencourt

É ou não é? Eis a (não) questão

\\"Se é de espetáculo que se trata, temos de recentrar a questão naquilo que faz o futebol ser o que é: o valor da técnica, dos golos, da capacidade de resistência, de superação, de bravura, de beleza; o valor do público, da união entre pessoas e do próprio espírito desportivo. São aspetos de que vale a pena tratar. Vale mesmo a pena!\\"

Em geral, o futebol português tem evoluído de forma notória. Temos enormes treinadores, aliás, Portugal é o país com maior número de treinadores nas competições europeias; com jogadores nas melhores equipas do mundo; departamentos médicos e de scouting de altíssimo nível; árbitros nas finais de campeonatos do mundo e da Europa. Enfim, o mundo do futebol, em Portugal, parece reunir condições exemplares para elevar o nível do futebol em geral.

Mas pergunto, será que Portugal tira partido destas condições pelas quais sempre se bateu?

Com tanta qualidade futebolística à nossa volta deveríamos estar educados a ajuízar o que é bom e perceber onde está o cerne da questão. A parada da discussão à volta deste tema deveria subir de interesse.

Estou na rua, passo por um café e oiço pessoas a falar de futebol. Aproximo-me… e reparo que estão a falar da qualidade da arbitragem. A discussão centra-se na decisão do árbitro acerca de um penalti. Afasto-me, desiludido com o tema da conversa. Páro no quiosque para comprar um jornal desportivo. Observo o jornal e, para minha frustração, é manchete o tal penalti que foi “mal” assinalado. (Estou a falar de um dos maiores jornais desportivos do país). Chego a casa, sem jornal e, já um pouco cansado, ligo a televisão e escolho um dos canais nacionais de referência. Os meus atarefados ouvidos chamam-me a atenção para o programa que está no ar. Aí, também a conversa se centra no penalti que já é manchete.

Farto de um assunto que não é assunto, mudo de canal e por fim desligo a televisão. Dou comigo a pensar que o que se deveria mudar era o tema, não o canal. Aceito que a discussão faz com que o futebol se mantenha vivo e isso é muito bom, mas não deixo de me entristecer com o facto de constatar que se chegou a um ponto (com espaço para exceções, claro está) em que, em quase todos (repito: quase todos) os programas e jornais, o tema central é o dito penálti “mal” assinalado.

Na minha modesta opinião, o centro da discussão não deveria ser uma decisão do árbitro, neste caso um penalti, mas sim a qualidade do jogo e dos jogadores. É sobre isso que se deve discutir. Claro que a qualidade do árbitro pode e deve influenciar a qualidade do jogo, mas gastar três a quatro horas por dia a discutir as “teorias dos penaltis” não me parece o mais correto. Gostava mesmo, como adepto e como treinador deste tão belo desporto, que se falasse sobre ele de outra forma. De forma mais séria, mais profunda, mais abrangente, e cujo tema central fosse aquele que verdadeiramente servisse para elevar o nível do futebol.

Se é de espetáculo que se trata, temos de recentrar a questão naquilo que faz o futebol ser o que é: o valor da técnica, dos golos, da capacidade de resistência, de superação, de bravura, de beleza; o valor do público, da união entre pessoas e do próprio espírito desportivo. São aspetos de que vale a pena tratar. Vale mesmo a pena!

Temos que falar de futebol, da sua essência e da sua arte!

Por isso, com tanta qualidade futebolística que nos rodeia (sim, é verdade, em Portugal temos muito bom futebol) peço que pensemos um pouco no que estamos a fazer e reencontremos de novo o caminho para as grandes discussões que este bom futebol pode gerar. Agora, por favor, chega de “pseudo-pênaltis”, analisados por mil e uma câmaras, de vários ângulos e vistos repetidas vezes (devido à quantidade de repetições que se quer mostrar).

Não é para aí que devemos direcionar o nosso zoom.

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9 comentários

  1. Mt bom!

  2. Caro Amigo Há uma coisa que não é aconselhável " educar o mercado " Em Portugal as pessoas ( em geral ) gostam dos Clubes não gostam de futebol . Em Portugal é difícil a alguns perceber que o futebol está muito acima ( mais competitiva ) da maioria das

  3. Infelizmente é a nossa triste realidade. Uma dezena de programas desportivos, três diários, sites, blogs a falar da arbitragem e de eventuais polémicas. Temos de mudar o foco para o que de mais belo tem o desporto rei! Falar dos golos, das jogadas, das t

  4. Caro Francisco de Camões , Mais um excelente texto de um tema demasiado presente no futebol actual , em que apenas reduz o mesmo ao desempenho de um pobre indivíduo quando existe tão mais ( como bem realças) para analisar, comentar e até apreciar, como po

  5. No nosso país não existe uma paixão real pela modalidade e isso tem bloqueado a evolução do mesmo em várias perspetivas (como por exemplo a ausência de público na maioria dos nossos estádios). São muitos os exemplos que temos deste facto, basta ver o form

  6. Meu caro Francisco, sem sombra de dúvida que o caminho a fazer será aquele para que apontas. Mas o futebol não só envolve grandes interesses que nada tem a ver com a verdadeira actividade desportiva como precisa de gerações para reeducar os valores do des

  7. (cont.) ... como precisa de gerações para reeducar os valores do desporto seja qual for a modalidade. Abraço, Joaq.

  8. cáro Francisco,estou completamente de acordo contigo,não se devia ligar tanto aos erros dos árbitros ,e olhar-mos mais para a forma como as equipas são treinadas,e orientadas,mas penso que isso é uma questão nossa cultural,mas também em abono da verdade,

  9. Concordo com tudo o que foi dito. O verdadeiro amante do futebol põe de lado todos esses pseudo-problemas.

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