João Marinheiro


Jornalista TVI | Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH, UNL

"Good men, the last wave by, crying how bright their frail deeds might have in a green bay, rage, rage against the dying of the light."
- Dylan Thomas

E depois de Hollande?

Tem sido coisa de partidos socialistas em anos recentes. Na Grécia, o PASOK entrou em declínio durante a ascensão do SYRIZA. Em Espanha, Pedro Sánchez abandonou o cargo de secretário-geral do PSOE no início de Outubro último, após dois dos piores registos de sempre nas legislativas e em contraste com a subida do Podemos junto dos eleitores. Já em França, a conversa agora não se centra tanto no candidato presidencial (apesar das presidenciais que aí vêm), mas sim numa espécie de organização interna do Partido Socialista (PS) para o período pós-François Hollande.

Em apenas duas semanas durante o mês passado, o actual Presidente francês conseguiu destruir qualquer possibilidade de recandidatura ao Eliseu. Tudo por causa de um livro, escrito por jornalistas do Le Monde, que recolhe 60 horas de conversas do chefe de estado nos últimos quatro anos. Uma extensa colectânea de confissões, onde se incluem palavras pouco simpáticas dirigidas a membros do seu próprio governo, como o Primeiro-ministro (Manuel Valls), o Ministro dos Negócios Estrangeiros (Jean-Marc Ayrault), o Ministro da Educação (Najat Vallaud-Belkacem) ou até ao Presidente da Assembleia Nacional (Claude Bartolone).

Escusado será dizer que os testemunhos ajudaram a afundar a popularidade de Hollande, que já tinha atingido mínimos históricos, para números sem precedentes no país. A última sondagem do CEVIPOF para o Le Monde, estima que apenas 4% dos franceses pensam que o Presidente está a fazer um bom trabalho. Uma demonstração de pouca confiança que já levou o jornal norte-americano New York Times a apelidar o socialista, amavelmente, de "morto-vivo".

O tabuleiro político não está risonho em França. 2017 promete uma segunda volta inédita das presidenciais porque deverá jogar-se "à direita", com a passagem da candidata de extrema, Marine Le Pen, e um conservador (Alain Juppé, Presidente da Câmara de Bordéus, é o favorito, seguido de Nicolas Sarkozy, segundo revela a sondagem da Ifop-Fiducial para a iTele, Paris Match e Sud Radio).

Posto este cenário - e sempre no domínio das hipóteses -, os socialistas estarão mais concentrados em perceber quem será o seu candidato perdedor à presidência. Isto porque será ele ou ela a tomar as rédeas do partido depois das eleições.

Mas até aqui o chão treme. Fala-se em Manuel Valls e fala-se que este esteja a reunir tropas para concorrer às primárias socialistas. Um estudo, citado pela Europe 1 e publicado ainda esta semana, mostra que o Primeiro-ministro já ultrapassou Hollande quando se fala no conjunto dos franceses. O problema é que Valls continua a ser uma figura pouco consensual dentro do partido. Ainda nas primárias de 2011, recolheu apenas 6%.

Por isso, há quem fale em Ségolène Royal, Ministra do Ambiente, antiga candidata presidencial e ex-mulher do Presidente. O seu registo eleitoral não é, contudo, sorridente: perdeu com distância de seis pontos percentuais para Sarkozy nas eleições de 2007 e teve menos que Valls nas primárias de 2011. Até ela não parece muito interessada. Quando lhe perguntaram se iria tentar outra vez, Royal respondeu: "se isto fosse possível de vencer, não teriam vindo falar comigo".

Seja como for, o enquadramento actual reflecte um PS perdido num quarto escuro, sem expectativas de fazer contra-peso à direita nas presidenciais. Na semana passada, a versão europeia do jornal Politico terminava uma análise à situação política francesa de forma pertinente. Citavam um investigador da universidade de Sciences Po que dizia que alguns socialistas iriam amar "se Juppé fosse eleito, falhasse as reformas, para que pudessem colher os benefícios eleitorais das eleições europeias de 2019".

Ao que o autor do artigo aproveitou para concluir: "algo que só poderia acontecer se ainda existir um Partido Socialista até lá".


0 comentários

Deixar um comentário