João Faria


Gestor

"Ter um sonho grande dá tanto trabalho como ter um sonho pequeno."
- Jorge Paulo Lemann

Dois Caminhos

Em 1970 a vida no Paquistão ia-se tornando mais dura de dia para dia para quem procurava uma vida pacífica. As tensões com a Índia e com o Paquistão Oriental (hoje Bangladesh) tornavam-se mais óbvias de dia para dia, e a ameaça de uma convocatória militar para servir o país pairava sobre o pensamento de Amanullah e Sehrun, casados de fresco há poucos meses na Mesquita principal de Islamabad.

A mais de 10 mil Kilometros, vivia-se a “Trudeaumania”. Pierre Elliot Trudeau chegara ao poder em 1968 e o seu estilo energético rapidamente cativou os canadianos. Lidou sem contemplações com o movimento extremista de libertação do Quebec, enfrentando-os inclusivamente cara-a-cara sem qualquer receio na sua campanha eleitoral e questionou a publicamente por diversas vezes a atitude Americana na guerra do Vietnam.

Uma carta do seu primo Sharif, que abrira uma loja de conveniência em Londres três anos atrás fez a família Khan decidir rapidamente mudar-se de armas e bagagens para uma pequena casa no Sul de Londres, ele a trabalhar como motorista de autocarros e ela como costureira, à procura da estabilidade desejada para criar os tão desejados filhos. Foram 8, 7 rapazes e uma rapariga. No dia 8 de Outubro de 1970 nasceu o quinto, ao qual chamaram Sadiq.

O casal Pierre Trudeau e Margaret Sinclair era presença habitual nas capas de revistas canadianas. E todo o país atribuiu um simbolismo especial ao facto do primogénito deste casal, Justin, ter nascido precisamente no dia de Natal de 1971.

Sadiq desde cedo se destacou na escola pública de Earsfield. Apesar de desde muito novo trabalhar aos finais de tarde e aos sábados para ajudar a família, sempre foi reconhecido na escola como um excelente aluno, das letras à matemática, e a sua personalidade argumentativa fez com que decidisse seguir direito. A persistência e resiliência desde cedo se mostraram inatas, e aos problemas de racismo que se iam tornando cada vez mais frequentes reagiu com a entrada em treinos de boxe e aprendendo a defender-se de tudo o que o poderia desviar do seu caminho.

Começou uma promissora carreira como advogado, ocupando-se essencialmente de casos de abusos policiais e descriminação racial. O seu poder de argumentação rapidamente cativou o Labour Party onde entrou para a política e rapidamente escalou desde a entrada no parlamento em 2005 para membro do governo de Gordon Brown em diversos papeis, bem como membro destacado da liderança de Ed Miliband no seu partido.

Justin, aos 4 meses de idade, recebeu a visita do então presidente americano Richard Nixon, que em Abril de 1972 numa visita a Otawa propôs um brinde ao “futuro primeiro-ministro do Canadá”. Cresceu sempre com uma enorme proximidade com os seus 2 irmãos, Alexandre e Michel, aproveitando os 3 as fantásticas oportunidades que o papel do seu pai lhes proporcionava, nomeadamente nas visitas ao estrangeiro.

Ao contrário do pai, sempre se mostrou liberal e interessado em aprender e conhecer mais lugares, enquanto viajava também com amigos por todo o mundo. Sofreu o seu primeiro grande revés na vida quando o seu irmão Michel morreu tragicamente numa avalanche em 1998, seguindo-se o seu pai dois anos depois. E foi precisamente ao homenagear o seu pai numa cerimónia de Estado que o seu dom natural para a palavra começou a captar atenções.

Tornou-se um activista na promoção da segurança na neve, bem como um elemento importante na promoção do voluntariado no seu país. Antes de entrar para a política, começando a comentar e a envolver-se no meu após o desaparecimento do seu pai.

Em 2006 começou a tornar-se figura destacada do partido liberal, apoiando um dos candidatos, e em 2007 acabou por ganhar a nomeação pelo partido, permitindo-lhe entrar no parlamento como oposição no ano seguinte. Começou por defender uma política nacional de voluntariado para jovens, e teve um papel fundamental em 2010 ao promover a abertura do país aos Haitianos que haviam sido devastados por um devastador terramoto.

Começava assim uma lufada de ar fresco na política canadiana. Chegou a defrontar um senador conservador numa partida de boxe para fins humanitários, tendo vencido contra todas as previsões e aumentando a sua já crescente popularidade. Em Abril de 2013 finalmente assumiu a liderança do seu partido e foi com naturalidade que, 2 anos e meio depois, provou que o veredicto de Nixon quando tinha apenas 4 meses estava correcto e sucedeu a Steven Harper mudando o paradigma de um país acabado de viver 10 anos sob um poder altamente conservador.

Desde Outubro de 2015 que Justin Trudeau luta para que a política seja vista como uma força positiva e de união num país que ainda sente sequelas de fracturas independentistas com muitos anos. Promoveu a igualdade, aumentando os impostos aos mais ricos e baixando a toda a classe média

Em maio de 2016, Sadiq sucedeu ao polémico conservador Boris Johnson como mayor na mais cosmopolita cidade europeia, um dos grandes centros financeiros, culturais e sociais a nível mundial, prometendo lutar contra a discriminação e por uma maior igualdade de oportunidades.

De pontos de partida completamente opostos, Sadiq e Justin chegaram ambos aos seus objectivos. Podem argumentar que um mais facilmente do que o outro e que não são casos comparáveis, mas o elo que os liga é só um : Uma determinação e vontade férrea de passar por cima de tudo para chegar onde queriam. E isso é, ou devia ser, uma lição para todos nós. Talvez nem todos os caminhos vão dar a Roma, mas o único destino possível para alguém que acredita e luta pelo que quer é atingir os seus objectivos.

João Faria


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