Francisco Reis


Faculdade de Direito, UL

"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes."
- Ricardo Reis

Depende, tens consciência?

Há muito tempo que me questiono sobre se a ignorância contribui para a felicidade ou até se, como alguns pensadores gostam de afirmar, é seu pressuposto. É uma velha questão, sobre a qual diria que quase todos já reflectimos.

Esta semana, numa conversa de pós-estudo, mais uma vez ela surgiu e mais uma vez me preparava para a discutir com um grande amigo com quem já a discuti inúmeras vezes. Os dados estavam lançados, esperava-se a repetição de um exercício intelectual inconclusivo, mas sempre, de algum modo, frutífero. A diferença: desta vez, por mero acaso da vida, estava presente um terceiro elemento, que eu acabara de conhecer. Ora, esta interveniente casual, com uma sábia e invejável simplicidade resolveu com duas frases, e entre risos, o dilema. Ou, pelo menos, parece-me que introduziu a chave para a solução.

Fê-lo deslocando a questão de um sistema binário de ignorância versus lucidez para a conjugação entre dois vetores e quatro pólos: ignorância/sabedoria, inconsciência/consciência.

Olhando o tema com este novo método, torna-se claro que o guardador de rebanhos que Pessoa inveja não é feliz porque é ignorante, mas, porque no espaço em que se move a sua consciência, na realidade que habita, possui toda a sabedoria de que necessita. Domina a sua arte, conhece o seu rebanho, orienta-se nos montes por onde passeia. Há uma plenitude na sua existência, plenitude da qual brota felicidade.

Já aquele que ignora o conteúdo da realidade onde se move, ou que o procura ignorar, está num estado precário. Mais cedo ou mais tarde essa realidade da qual ele têm consciência lhe revelará aquilo que ignora. Quantas vezes não procuramos não ver, não saber, não descobrir, não indagar, refugiando-nos na ignorância, conscientes de que o fazemos, esperando, ao escudarmo-nos da dureza crua da realidade, conseguir encontrar um resquício de felicidade? Quantas vezes ignoramos as pistas, os indícios, os alertas, os sinais, porque não queremos deduzir a conclusão para que apontam? E não se revela isso sempre um erro? Mais que um erro, um desperdício de tempo e energia, pois a realidade mais tarde ou mais cedo se impõe e destrói, retroativamente, esta pretensa felicidade.

Então e quando a realidade de que temos consciencia é de tal forma ampla que o seu conhecimento completo é impossível? Não seremos forçados ao só sei que nada sei? De facto, sendo a realidade ampla, faltar-nos-á sempre conhecimento, mas poderemos ainda assim ter a sabedoria necessária. (Atente-se que conhecimento e sabedoria são coisas inteiramente diferentes, o primeiro incide sobre factos da vida, a segunda sobre a essência da mesma, sobre o próprio viver. O conhecimento pode levar à sabedoria, mas não é a única via, nem a mais directa, nem a mais importante, para lá chegar)

Nesta sabedoria necessária estará contida precisamente a ideia de que não conhecemos tudo, nem poderemos conhecer. Nessa sabedoria incluir-se-á uma vontade de descobrir, de aprender, de conhecer. Nesse sentido, não seremos ignorantes, pois, apesar de pouco conhecermos, sabê-lo-emos e, sabiamente, procuraremos, cada dia, conhecer um pouco mais. Nessa medida, aproximar-nos-emos da plenitude do guardador de rebanhos.

Terminando o texto, apercebo-me que neste meu esforço circular, provavelmente tautológico e possivelmente incoerente, acabei por desvirtuar a simplicidade e a unidade da lição tão verdadeira e espontânea que me foi dada pela interveniente casual na fluida descontração de uma conversa informal.

Daqui talvez consiga, no entanto, tirar duas conclusões, assim salvando este texto. A primeira, que as respostas que buscamos estão sempre ao virar da esquina, é preciso é estar atento e disposto a ouvi-las. A segunda, que estas respostas tendem a ser simples e unas, tal como o será sempre a sabedoria. Transformando as minhas duas conclusões em duas premissas, arriscaria então concluir que a simplicidade e a unidade essas sim, e não a ignorância, são pressuposto da felicidade.


2 comentários

  1. Espetacular. E tão verdade nos dias de hoje, em que o que mais se vê é fugas da vida, da realidade, dos problemas. É mais fácil nao ver, não mostrar, não dar parte fraca e assim fingir que está tudo bem. E no fundo ninguém é feliz assim...

  2. Excelente texto. A Filosofia ajuda-nos a perceber que não só o potencial de aumento de conhecimento é geometricamente proporcional ao universo do desconhecido, como também o desconhecimento aumenta à medida em que mais é conhecido. https://intransmissive

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