Henrique Alpalhão


Assistente Convidado, Nova SBE

"Há gente para quem a liberdade tem um sentido essencialmente agressivo"
- António de Oliveira Salazar

Democracy (it fails us now)

Avizinha-se a eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Findos os três debates, aproxima-se dos eleitores americanos uma importante decisão – quem encabeçará uma das principais potências mundiais nos previsivelmente conturbados quatro anos seguintes.

As presidenciais americanas de 2016 são de carácter (e importância) invulgarmente internacional. Como é óbvio, dado o poder dos EUA, a escolha do seu chefe de Estado é sempre algo marcante para os demais países. O próximo incumbente, no entanto, terá o enorme desafio de lidar (ou decidir lidar) com um Estado Islâmico errante. Várias outras questões de diplomacia, como a crescentemente necessária revisão das relações com a Rússia ou do papel dos Estados Unidos nos acordos de cooperação e comércio internacional, dão ao sucessor de Barack Obama um elevado potencial de impacto sobre outras nações.

Concorrendo sob a alçada dos dois principais partidos americanos estão dois candidatos extremamente diferentes – a política de longa data Hillary Clinton e o magnata Donald Trump.

Clinton é, na maior parte dos sentidos, a candidata da continuidade – uma veterana da política que, ao longo de largos anos, desempenhou vários papéis no governo nos EUA. Apoiada pelo actual presidente, é claramente a candidata sensata (especialmente comparada com o seu adversário).

Na minha opinião, Hillary Clinton é uma escolha fraquíssima. O pior que a democracia tem para oferecer – uma política profissional, de ideias convenientes e mutáveis. Clinton é o cúmulo da falsidade, moldada em cada momento pelo que a audiência quer ouvir. Montou, além disto, uma candidatura com claros defeitos. Aponto-lhe, em particular, uma falha enorme: procura atrair um voto razoavelmente feminista, mas apoia-se (e apoiou, ao longo da sua carreira) no seu muito publicamente desrespeitado casamento. Posiciona-se como a candidata da sensatez, preparação e conhecimento do sistema, esquecendo-se que ser uma insider de longa data é dificilmente classificável como algo de bom. Eis onde Clinton não representa continuidade – no abismo de qualidade entre si e Barack Obama.

Trump, por outro lado, é algo que muito raramente vemos – até recentemente, um completo estranho à política. Traz a novidade de não ter uma agenda especialmente identificável com o seu partido, mas sim consigo próprio: uma vantagem de ser um estranho nestes palcos. A beleza acaba aqui, no entanto, pois esta agenda pessoal mostra-se muito ligeira, e pior que isso, por vezes superlativamente despreocupada em várias questões de elevada importância. Trump é um homem “mimado” – habituado a ter o que quer e a não ter que defender as suas posições. Quer ser presidente, tem umas ideias vagas (e rebuscadas/perigosas), e na mente dele reúne desta forma todas as condições necessárias. Ganha a minha simpatia face a Clinton por uma razão apenas – é relativamente genuíno e diz o que pensa, muito contrariamente à sua adversária. O que pensa, no entanto, não é de todo adequado para deter um cargo de poder. Clinton, sendo fraquíssima, é uma candidata plausível. Trump não o deveria ser.

Na divisão do eleitorado americano, Clinton tem um papel basicamente inexistente – a separação prende-se com gostar ou não de Trump. Incrivelmente, a campanha altamente cavalier e conflituosa do candidato Republicano tem capturado cerca de metade dos eleitores americanos, algo que para os nossos olhos europeus é simplesmente inacreditável. Por cá, o PNR serve para fazer humor – nos EUA talvez eleja um presidente.

A massa votante dos Estados Unidos tem uma particularidade que se torna hoje especialmente evidente: a quantidade de eleitores totalmente clubísticos (“politicamente cegos”) que são capturados por ideias como as de Trump é enorme. Que a política nos EUA é clubística a níveis muito superiores aos que vemos por cá era conhecido – que os eleitores sejam de tal forma susceptíveis a ideias com tão pouco fundamento, tão facilmente classificáveis como radicais é, pelo menos para mim, algo surpreendente.

Este carácter clubístico traduz-se numa política marcadamente de confronto – uma parte significativa da argumentação dos candidatos americanos assenta no ataque ao adversário. A edição deste ano, no entanto, eleva este cariz a um nível irrazoável – quem tiver seguido os três debates terá retido um número maior de razões pelas quais cada candidato não deve ser presidente do que o oposto. Estranhamente adequado, tendo em conta a natureza de mal menor desta escolha. O valor intelectual das discussões torna-se ainda mais reduzido do que o habitual (excepto talvez se as passarmos a tentar identificar as falácias), mas para compensar o espetáculo que Clinton e Trump dão equipara-se a um episódio de Smackdown vs. Raw.

Entregar a presidência a um agente exterior à política é uma ideia tentadora. Este agente específico, no entanto, tem um potencial de impacto sobre o mundo demasiado perigoso. Se o seu adversário não fosse Trump, cuja derrota é imperativa aos olhos de muitos eleitores, Clinton nunca teria hipóteses. Assim sendo, construiu e fomentou uma tácita imagem de mal menor, e se vencer não será como Hillary Clinton – será como not Donald Trump.

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