Francisco Reis


Faculdade de Direito, UL

"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes."
- Ricardo Reis

Deixem-no falar!

Todos nós no fundo sabemos que podemos estar errados, mas não tomamos as precauções que essa percepção exige. Estou a parafrasear John Stuart Mill, como não o fazer? Quando vejo a liberdade de expressão ser posta em causa, lembro-me sempre da sua obra "Sobre a Liberdade". E por isso recordei-a esta semana quando li as notícias sobre o cancelamento da palestra de Jaime Nogueira Pinto na Universidade NOVA devido à pressão exercida pela associação de estudantes da FCSH.

Hoje, no mundo Ocidental, o reconhecimento da liberdade de expressão é já uma conquista algo assente(ou deveria ser), mas a verdade é que quando alguém defende uma posição que consideramos indefensável, parece haver um súbito impulso de deitar esse direito pela janela, de abafarmos essa pessoa, antes que ela convença alguém, antes que essa ideia propague. Quase que parece que apenas aceitamos a liberdade de expressão do outro, enquanto ele a usar para expressar posições que nos parecem aceitáveis. Trata-se de uma tentação autoritária à qual é imperativo resistir.

Primeiramente, temos de o deixar falar não apenas porque a nossa Constituição assim o dita, não apenas porque a Democracia o implica, mas porque o respeito da diginidade da pessoa humana a isso obriga. Mesmo que o discurso da pessoa ataque a Constituição, mesmo que se oponha à Democracia, mesmo a sua visão do valor da dignidade da pessoa humana seja diferente da nossa, temos de o deixar falar, sob pena de pormos em causa os próprios valores que queremos proteger. Impedir alguém de falar porque consideramos o seu discurso é antidemocrático é uma contradição nos seus próprios termos.

A genialidade de Mill é mostrar-nos de forma tão cristalina que mesmo quando temos toda a convicção de que a pessoa está errada, temos algo a ganhar em ouvi-la. Em primeiro lugar, porque quer queiramos quer não, há sempre a possibilidade de essa pessoa ter razão, por muito que discordemos dela. De facto nenhum de nós é ominisciente, faz parte da nossa condição humana não poder ter a certeza de nada, porque não conhecemos nem percebemos tudo. A nossa capacidade intelectual é fatalmente limitada. Reconhecê-lo é inevitável e absolutamente desejável. Por muito forte que seja uma convicção, ela será sempre isso, uma convicção. Não um facto, não a Verdade, mas uma perspectiva, uma opinião.

A Verdade está para lá do nosso alcance o máximo a que podemos almejar, é a aproximarmo-nos dela. Essa aproximação, enquanto esforço colectivo da humanidade, faz-se precisamente pelo debate e pelo contraste de ideas. É de tese refutada em tese refutada, que tem avançado o conhecimento humano.

Então e se o outro estiver mesmo errado? Não seria melhor que ele não falasse? Não, mesmo que pudessemos saber com toda a certeza que a opinião de uma pessoa estava errada, ainda assim deveríamos ouvi-la, porque é o contraste com o errado que demarca o correcto, é no confronto com o escuro, que percebemos de onde vem a luz. Nada melhor para aperfeiçoar uma teoria, para polir uma argumentação, para fortalecer uma posição, do que ser obrigado a defendê-la.

Além do mais, ao descermos do plano mais abstracto, para o plano da realidade da vida, realizaremos que esta hipótese de uma posição estar completamente certa e outra completamente errada é algo académica. Regra geral cada lado da barricada terá os seus pontos de força e as suas incompletudes, pelo que se torna ainda mais límpido que a diversidade de opiniões enriquece o debate.

Deixemo-lo falar, seja quem for, diga algo de certo ou errado, é sempre seu direito falar e, além disso, temos sempre algo a ganhar em escutar.

Uma Associação de estudantes fazer com que uma palestra numa Universidade(espaço de debate por excelência) seja cancelada porque alguns dos seus membros não concordam com as posições ideológicas do orador é profundamente antidemocrático, é um desvirtuamento total das funções de uma associação académica, é um abuso de poder, é uma vergonha.


2 comentários

  1. Muito bom! "Deixemo-lo falar, seja quem for, diga algo de certo ou errado, é sempre seu direito falar e, além disso, temos sempre a ganhar em escutar" Excelente!

  2. "Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas lutarei até à morte pelo teu direito de o dizeres" Voltaire

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