João Ferreira Pelarigo


Ciências da Comunicação, UNL

"Experience is what you get when you didn't get what you wanted."
- Randy Pausch

Das prioridades e das necessidades

Um modelo para o futuro que torne a agricultura numa das principais prioridades reveste-se de grande importância para fazer cobro ao ambiente de pobreza.

Antes de se falar do cartão de cidadão que é sexista porque não é cartão da cidadã ou da cidadona, antes de falar da possibilidade de levarmos os nossos cães, caranguejos, periquitos, gatos, camaleões ao café para tomarem o chá connosco à mesa, antes de abordarmos temas secundários – porque para mim são secundários – devemos reflectir sobre aquilo que são urgências.

A verdade é que, creio eu, não é possível dissociar a crise económica de uma das grandes preocupações que tem vindo a ser discutida por diversas entidades a nível mundial: a crise alimentar.

Quando abordada, não há como escapar a um retrocesso no tempo, pois a verdade é que uma crise no sector da alimentação é mais antiga que a crise financeira contemporânea. Todavia, o surgimento dos problemas ao nível económico-financeiro em 2007 atribuiu relevo à questão alimentar, na medida em que esta será sempre influenciada pelos prejuízos no sector financeiro.

Denota-se uma grande preocupação em proteger aqueles que mais facilmente serão abatidos pela ausência de empregos, qualidade de vida, capacidade económica e, por isso, ausência de uma alimentação eficaz e que evite o rumo à pobreza e à fome.

A Terra parece não girar à mesma velocidade desde o aparecimento da crise económica; no entanto, esse movimento é mais lento dada a existência de um elevado número de pessoas subnutridas a viver afundadas na pobreza, cenário que não se prevê melhor no contexto em que nos encontramos. A resolução de problemas relacionados com a subnutrição e escassez de recursos económicos aparece como uma consequência da própria resolução da crise financeira. Não há como ultrapassar a primeira sem se encontrar uma solução para segunda.

Neste sentido, para evitar a epidemia que é a fome e o alastrar da pobreza, grande motor da aniquilação de muitos homens e mulheres, crianças e idosos, por todo o globo terrestre, contrariar o aumento de preços dos produtos agrícolas e a tentativa de trazer o sector primário à superfície das principais actividades económicas globais revela ser, para um futuro emergente dos fundos da pobreza e da fome, uma solução para combater as necessidades do presente. Assim, o emprego terá tendência para crescer e, por isso, também os rendimentos, que serão a força para o investimento e para o consumo.

Um modelo para o futuro que torne a agricultura numa das principais prioridades reveste-se de grande importância para fazer cobro ao ambiente de pobreza, pois esta realidade assombra, local e globalmente, o presente de milhões de pessoas que, para as próximas gerações, segue a tendência do crescimento populacional.

São os recursos naturais, mais do que os artificiais e materiais como é muitas vezes concebido, que mantêm o Homem vivo e, por isso, há que preservar o planeta para preservar a existência humana. Uma agricultura sustentável aparece como uma solução fulcral para ultrapassar a ameaça que o Homem é para os recursos naturais e para si mesmo.

Na realidade só pode haver uma boa alimentação quando há, no mesmo seio, recursos suficientes, produção sustentável, um emprego que permita capacidade de consumo numa esfera em que os preços correspondam às capacidades de compra dos indivíduos.

Deste modo, há que apostar na agricultura de forma a desenvolver forças de sobrevivência à crise financeira e a evitar o escuro cenário de miséria que continua a ameaçar com a fome as gerações que virão.

Dediquem, quem pode, atenção àquilo que merece palavras, que merece destaque e, acima de tudo, que merece ser prioridade. Ninguém pode ter um cartão de cidadão – ou o cartão de identidade, se preferirem – se perder a identidade para a fome. Ninguém pode levar gatos para o café se não tiver como sobreviver à escassez.


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