José Mª Gonçalves Pereira


Faculdade de Direito, UL

"Life is like a rollercoaster. It has ups and downs. But it is your choice to scream or enjoy the ride."
- Unknown

Carta à Vida

Querida Amiga,

O assunto que te trago não é fácil de tratar. Receio que te zangues comigo, que me aches ousado, que te perguntes por que razão te trato por "tu" quando ainda mal nos conhecemos. És a pior inimiga que se pode ter, ganhas todas as batalhas contra quem, arrogantemente, te tenta enfrentar. Pelo exposto, começo pela parte fácil.

Por agradecer-te. Agradeço-te todos aqueles que puseste no meu caminho. Aqueles cujo mero vislumbre mental me aquece o dia e, atrevo-me, a alma. Tenho aprendido que uma existência bem sucedida pouco passará da sua presença. E deste-mos com fartura, motivo pelo qual te estou eternamente agradecido. Tantos cuja palavra, o sorriso ou um mero olhar fazem da batalha que é cada dia uma vitória conquistada.

Agraciaste-me com o gosto pelos bons livros e pela boa música. Mas não penses que não percebi a tua intenção. Puseste-os na minha frente para que me lembrasse de ti, que te procurasse, que conversasse contigo. Pensaste em ti, não és perfeita. Mas desculpo-te, porque essa aproximação que desejaste, essa importância que deste a ti mesma, esse egocentrismo, me fizeram perceber o quão nuclear és na minha existência. Tão nuclear que temo agora perder-te. Mas já lá iremos.

Por último, mas não menos importante, agradeço-te todos aqueles momentos, pequenos ou grandes, que valem por si. Cada cerveja a mais que puseste na minha mão, mas que tornou uma noite inesquecível. Cada momento em que te manifestaste, mandando-me conduzir para longe, pelo simples facto de ser longe; este longo caminho mais não é do que uma soma de pequenos gritos de liberdade, e tu tens-me tornado isso evidente. Deste-me conversas de 4 horas, que passaram com a velocidade de um instante, com os tais que me aquecem. Conversas sobre tudo e sobre o nada. Sobre ti, sobre o que nos reservas para o futuro, a maneira como nos daremos, ou sobre o que acontecerá quando esta nossa parceria acabar. Acredites ou não, cada palavra dita nessas circunstâncias foi preponderante para que hoje decidisse escrever-te.

Chegámos à parte difícil. Venho pedir. Não me leves a mal. Estou ciente de que és o elo mais forte neste caminho que fazemos juntos. Que um dia eu me vou e tu ficas. Percebo que é uma ousadia abordar-te tão diretamente, mas tenho também a certeza absoluta de que admiras aqueles que, humildemente, têm a coragem de bater à tua porta para conversar.

Neste quadro, começo por pedir que nunca deixes que me afaste. Nunca permitas que passe por ti sem te cumprimentar. Põe-te no meu caminho, atropela-me. Algema-me a ti, se necessário for. Quero que garantas que nunca deixaremos de caminhar de braço dado, que nunca me perderei de ti. Sei bem o vazio que seria trilhar este caminho sem ti, portanto mantém-te perto. Quero viver-te.

Não te vou pedir que sejas branda comigo. Seria pedir demais e desvirtuaria a natureza das coisas. Se decidires sê-lo, melhor. Mas promete-me que, se nos dermos muito bem, não te acanharás se for necessário explicar-me que o caminho é outro. Se o rumo certo for diferente daquele que me parece ter sido planeado para mim (por ti?), peço-te que mo tornes evidente, por muito que me confunda ou por mais dura que seja a reação que me possa ser exigida.

Finalmente, peço-te que me dês a capacidade para que consiga sempre mostrar aos tais que me aquecem a importância que para mim têm. E, por último, gostava que, quando o nosso longo (espero) "contrato" finalmente terminar, me deixes alguém que tenha aprendido com o nosso caminho juntos. Alguém que, quando inevitavelmente se cruzar contigo, me continue, e te viva como eu te vivi.

Querida Vida, por agora é tudo. Mas não te esqueças, vai dando notícias. Até breve,

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1 comentários

  1. Valer a pena ler... Uma reflexao sobre a vida que tantas veze nos esquecemos do que é vive la Gr ze

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