Henrique Alpalhão


Assistente Convidado, Nova SBE

"Há gente para quem a liberdade tem um sentido essencialmente agressivo"
- António de Oliveira Salazar

Café, pré e pós-74

1962

Vive-se o Estado Novo, Presidente da República o Almirante Américo Thomaz. Preside ao Conselho António de Oliveira Salazar. O poder político encontra-se entregue à União Nacional. O país está em guerra pela defesa de territórios longínquos e de ideais ultrapassados. A liberdade de expressão é limitada, o clima é de opressão. A taxa de analfabetismo em Portugal ronda os 30%. Os isqueiros carecem de licença. Fado, futebol e Fátima são as alegrias dos portugueses. As fardas cinzentas pairam desconfortavelmente sobre os cidadãos...

Dois amigos tomam café numa tarde de sol lisboeta. A conversa é audivelmente banal e de circunstância, as impressões pessoais e inconsequentes, as discussões sobre futebol. Entre generalidades, no entanto, sussurrados, certos temas persistem em aparecer:

“A guerra...”

“Não há guerra”, apressa-se a outra parte a retorquir. “Operação de polícia, apenas.”

“Epá, ninguém acredita nisso. Tu também não. Se não falarmos nós não fala ninguém. Se não pensamos nós não pensa ninguém!”. Apesar da tentativa de controlo, o tom teimava, por vezes, em subir.

“Se te calares também ninguém vai preso. Tens de deixar de ser companhia tão perigosa... Política não é assunto de café. Política não é assunto, ponto.”

Do ultramar (ou colónias) à escandalosa "derrota" de Humberto Delgado, passando pelo mandato de 30 anos de Salazar, o Benfica campeão europeu deu lugar à libertação do povo português e ao combate ao fascismo. Sol de pouca dura – pela calada, dois discretos agentes da autoridade aproximaram-se da mesa, sugerindo que o próximo passo para os pensadores seria identificação na esquadra.

2016

Terceira República. Marcelo Rebelo de Sousa foi recentemente eleito Presidente. Os dois principais partidos protagonizaram nas últimas legislativas, e principalmente no seu rescaldo, um combate político elaborado. Um partido muito marcadamente de esquerda afirma-se cada vez mais como terceira força. A imprensa e a opinião pública são livres, despreocupadas e protegidas. O clima é de relativa estabilidade: Portugal integra uma comunidade internacional que, em conjunto, se afirma como potência mundial.

O diálogo de café análogo ao anterior não precisa de ser imaginado: já por muitas vezes o ouvimos (por vezes talvez até o tenhamos proferido). Todos têm opinião sobre tudo, tudo é razão de queixa. Todos são rebeldes eunucos – eternos queixosos, eternamente indisponíveis para tomar qualquer tipo de acção politicamente construtiva. O debate político é trivial – discute-se levemente e sem preparação, formam-se e difundem-se opiniões de fundamento duvidoso e finalidade limitada. O término da discussão também não é uma detenção, mas sim um retumbante aplauso social à emancipação política das massas, que não precisam de saber, apenas de opinar (e mais importantemente, votar).


Em Portugal, a banalidade e leviandade com que se exprime o pensamento, e mais grave, com que de facto se pensa, é mais do que um insulto aos que tentam imprimir método e lógica às suas opiniões – é uma afronta aos que quiseram e querem pensar e não o podem fazer.

A proximidade, tanto no passado como na mente colectiva, de um tempo em que a liberdade de pensamento era limitada deveria servir como um recorrente relembrar de quão importante é pensar e pensar bem. Actualmente, podemos discutir livremente em qualquer local e temos acesso a uma quantidade de informação impressionante. No entanto, deparamo-nos (não só em Portugal) com um palco político em que abundam opiniões baratas e com um regime que não só as fomenta, como vive delas. Esta afirmação não deve ser tomada como uma afronta à democracia, mas sim às democracias – infelizmente, questões como a votação do Brexit ou as actuais campanhas presidenciais nos Estados Unidos levam-me a crer que esta questão se estende para além do nosso país.

Em Portugal, de 1960 até hoje progrediu-se apenas numa pseudo-educação política – convencemos todos que podem e devem votar, mas não ensinámos a ninguém o que é um voto pensado. O voto é um valor superior ao voto responsável, e daí advém todo um regime disfuncional. Quando até os que não têm conhecimento para votar, por desinteresse ou falta de formação, são socialmente excluídos se não o fizerem, esperar um eleitorado sensato é um exercício de ingenuidade.

É preciso que haja noção de que uma opinião infundada traduzida num voto vale o mesmo do que o voto mais informado e ponderado – o bom funcionamento de uma democracia assenta na sensatez e integridade dos povos, na sua noção do poder que detêm. Alguns mais do que outros, mas sempre consistentemente, os eleitorados têm demonstrado que não merecem essa confiança. Parece-me bastante plausível que não estejamos a retirar máximo partido da democracia. Descartámos a discussão do regime quando implementámos a democracia, esquecendo-nos de que esta não é perfeita – carece de apuramento e nós carecemos de a apurar.

A real consequência de tamanha susceptibilidade da massa votante à demagogia é a transferência de poder para as elites políticas. A captura do voto é principalmente uma questão de influência sobre o eleitor, por sua própria culpa. Temos o regime que merecemos.

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