Miguel José Monteiro


Engenheiro Biomédico, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)

"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it"
- Evelyn Beatrice Hall

Brexit, uma novela política

Uma semana passou desde que o Reino Unido votou para sair da União Europeia. Num referendo cujo resultado ficou muito próximo do meio-meio, tal como apontavam as sondagens, a verdade é que, por cá, poucos eram aqueles que seriamente apontavam o Leave como vencedor. Independentemente das vontades de cada um quanto ao resultado, o voto no Remain parecia ser aquele que eventualmente ganharia, provavelmente por falta de precedente na questão do abandono da UE. E contra mim falo - eu apostava na permanência. Isto porque, colocando-me no lugar de um votante britânico, parece-me óbvio que o UK ganha mais estando dentro da UE do que fora. Mas sobre isto, já muito foi dito e escrito; a título de exemplo, veja-se a análise de John Oliver sobre o Brexit, no seu programa Last Week Tonight. No fundo, só dentro da UE é possível fazer a reformulação que esta tão desesperadamente precisa. Como europeísta, era o Remain o resultado que eu gostaria de ver, já que a saída do UK seria mais um prego no caixão da UE e mais uma validação do quão longe estamos duma Europa verdadeiramente unida, integrada e, eventualmente, federal.

No entanto, parece que não fomos só nós aqui em Portugal a achar que ganharia o Remain. A julgar pela ressaca política deste referendo no Reino Unido, é curioso ver como nem as próprias forças políticas envolvidas contavam com este resultado ou estavam minimamente preparadas. E refiro-me a políticos em ambos os lados da questão. No espaço de uma semana, o Reino Unido está a assistir a uma autêntica novela política que mete a Downtown Abbey no bolso - com intriga, traição e sotaque posh. Este autêntico descarrilar da carruagem política britânica tem progressivamente revelado a verdadeira ingenuidade e hipocrisia que reinou em toda a questão do Brexit. Desde populismo fácil até uma verdadeira incapacidade de medir as consequências das decisões, passando por um completo alheamento da opinião pública, houve de tudo nesta campanha e os resultados políticos começam a revelar-se agora. Vejamos então.

Comecemos pelo pré-referendo. Em 2013, numa jogada para ganhar o apoio da ala dos eurocépticos na campanha eleitoral para Primeiro-Ministro em 2015, David Cameron fez a promessa de, caso reeleito, referendar a permanência do Reino Unido na UE. Convicto estava ele de que a população iria votar na permanência, e no caminho ainda ganhava umas eleições com votos da sua oposição, totalmente inconsciente do tiro no pé que estava a dar. Já na campanha do Brexit, Conservadores e Trabalhistas colocaram-se nos lados da questão: os primeiros oficialmente neutros, os segundos oficialmente Remain. No Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, líder partidário, que sempre teve uma posição crítica da UE actual, foi “forçado” pelo seu partido a fazer campanha pela permanência, segundo alguns, contra a sua vontade individual. No Partido Conservador, Cameron defendia (obviamente) a permanência. Por outro lado, o famoso Boris Johnson, antigo mayor de Londres, colocava-se no outro lado da questão, o Leave, tornando-se uma das principais caras da campanha para a saída do UK da UE.

Referendo feito e vitória do Leave, começa o caos político no UK. Apanhado de surpresa, David Cameron, que tinha a vitória do Remain como garantida, não tem outra escolha se não anunciar a sua demissão, na sequência da derrota. Eis que surge Boris Johnson como principal sucessor a Cameron, nos Conservadores. A questão é que nem Johnson contava ganhar e, com a plena noção do desastre socioeconómico que a saída da UE pode causar, mesmo tendo feito campanha pelo Leave, decidiu não se candidatar, claramente para não correr o risco de ter de ser ele a carregar no botão vermelho que diz “Artigo 50º”. O Partido Conservador olha agora para Theresa May para suceder a David Cameron – ela que fez campanha pelo Remain mas que, curiosamente, tem uma ideologia marcadamente anti-imigração.

Por fim, do lado dos Trabalhistas, a coisa também não está famosa. Jeremy Corbyn, que é acusado pelo seu partido de ter sido propositadamente ineficaz na campanha, perdeu uma moção de não-confiança, com 75% a votar na sua demissão. No meio da ebulição, e com Corbyn a rejeitar demitir-se, surge Angela Eagle como potencial alternativa à liderança dos Trabalhistas. Tendo em conta a posição do partido, Eagle está agora sobre uma enorme pressão para se manifestar contra os resultados do referendo e contra a saída da UE. Dado que o referendo não é vinculativo, é possível o Primeiro-Ministro e Parlamento ignorarem o seu resultado; mas essa posição é altamente impopular e acarreta um elevado custo político.

E estamos nisto. Ou melhor, o Reino Unido está nisto. Entre a espada e a parede. Com um partido no Governo sem ninguém que faça aquilo que o referendo manda fazer, e um partido na oposição com a liderança debilitada. E se, no final, ninguém se chegar à frente para fazer o que a população mandou, isso é anti-democrático; se alguém o fizer, ninguém sabe o quão catastrófico pode ser.


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