António Araújo


Faculdade de Direito, UL

"Those who stand for nothing fall for anything."
- Alexander Hamilton

Brexit ou Os Inevitáveis Perdedores

O assunto desta crónica é profundo e complexo. Na análise que se procura fazer, deixaremos de lado os custos económicos de uma eventual saída do Reino Unido, ou os efeitos no que toca, por exemplo, à Escócia. Pelo contrário, pretende-se olhar para a questão de fundo de uma perspetiva europeia: que consequências terá um Brexit para a União?

Começamos com o acordo anunciado na semana passada por David Cameron. O triste espetáculo das passadeiras vermelhas em Bruxelas e da leviandade dos líderes europeus terminou com uma meia vitória do primeiro-ministro britânico. O acordo (cujo resumo pode ser lido aqui) impôs travões no pagamento de subsídios e abonos de família para imigrantes, um papel mais ativo dos países da União Europeia na gestão das políticas monetárias da Zona Euro, e a não aplicação ao Reino Unido da meta de uma união política crescente, que aponta ao federalismo europeu.

Os outros 27 líderes impuseram as suas condições, cada um atendendo aos seus próprios interesses eleitorais, tentando não colocar o seu futuro em perigo e ignorando os principais problemas políticos a nível europeu.

Não é novidade: foi assim com a Grécia, tem sido assim com os refugiados. O Conselho Europeu é o sinal mais vibrante de uma Europa sem visão nenhuma.

No Reino Unido, Cameron tem sido apertado por uma oposição crescente no seio do seu partido, entre a qual se contam seis ministros até ao momento. As sondagens estão equilibradas, não se fala de outra coisa nos cafés e na rua, há a possibilidade de um novo referendo na Escócia, e Boris Johnson, Mayor de Londres, apoiante do out e possível candidato à sucessão de Cameron, fala até abertamente num segundo referendo sem sequer ter ocorrido o primeiro.

Situemo-nos agora em 23 de junho, dia da votação. Imaginem que o out ganha. O Reino Unido recupera a sua soberania, deixa cair uns quantos milhões de empregos, abandona o mercado único, e daí a alguns meses perde a Escócia, frontalmente pró-europeia. Olhemos agora para a Europa: o ponto a que o egoísmo, a falta de liderança e a burocracia chegaram. No dia em que o out ganhe, ouviremos decerto o discurso de que “eles estão muito piores do que nós”; mas não é verdade. A vitória do out será, antes de mais, o falhanço decisivo do projeto europeu.

Imaginemos agora que é o in que ganha. Os britânicos conseguem um alívio ao caos que reina na sua economia. Mas é difícil acreditar que novos problemas não virão. E aí ouviremos o discurso de que “já tiveram um, não têm mais outro”. Com o imobilismo e a cegueira tão característicos, hoje, das instituições europeias, o problema subsistirá. E o sonho de uma Europa unida continuará a falhar.

O ponto que quero deixar é este: entre um país cansado de se submeter a uma Europa que vê como não sendo a sua, e uma União presa ao umbigo dos líderes e à burocracia dos números, está a derrota, inevitável, de um projeto que sonhou, em tempos, com solidariedade e prosperidade. Umberto Eco disse, uma vez, que a língua oficial da Europa era a "tradução": um esforço constante de respeito e de diálogo, de compromisso e de consensos. Hoje, é essa tradução que não temos. Com ou sem Brexit, somos todos perdedores.

A solução não passa, então, por um acordo momentâneo que confira aos britânicos um “estatuto especial”. É democracia que falta. Pôr fim à burocracia irresponsável, ao secretismo suspeito, à oligarquia do Eurogrupo e do Conselho Europeu. Fazer deste aglomerado de países uma verdadeira Europa. Uma Europa que honre a memória de Monnet, Delors, Schuman e Churchill. Uma Europa democrática. Uma Europa nossa.

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