Miguel José Monteiro


Engenheiro Biomédico, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)

"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it"
- Evelyn Beatrice Hall

Blame it on Obama

A História vai sempre lembrar-se de Barack Obama como sendo o primeiro afro-americano a tornar-se Presidente dos EUA. Mas a sua influência e importância foram muito além disso e os resultados que atingiu nos 8 anos que esteve na Casa Branca redefiniram de forma drástica tanto a política doméstica como a política internacional dos EUA. Agora que termina o seu segundo mandato, sem dúvida que podemos afirmar que Obama foi um dos Presidentes mais importantes e mais consequentes da História americana, cujos feitos tiveram e terão implicações significativas no futuro do país e do Mundo. Claro que, como qualquer presidência, uns vão achar que esses feitos foram excelentes e outros vão achar que foram um desastre; mas, no caso de Obama, é difícil argumentar que não foram extremamente determinantes.

Comecemos pela medida que foi a grande bandeira de Barack Obama nestes dois mandatos: o Affordable Care Act ou Obamacare. Pelo menos desde Ted Roosevelt, ou seja, há mais de 100 anos, que se fala da criação de um Sistema Nacional de Saúde nos EUA, ou seja, de um seguro de saúde público, pago pelo Estado. Este tipo de programas começaram a ser criados e implementados um pouco por todo o mundo nos países desenvolvidos durante o século XX, mas a ala progressista americana nunca conseguiu fazê-lo. Vários foram os Presidentes, tanto Democratas como Republicanos, que tentaram ou demonstraram vontade, mas sem sucesso. Até que chega Obama. O que Obama conseguiu foi criar uma versão beta deste SNS americano, ainda defeituosa, com vários problemas para resolver e que deixa milhões de pessoas sem cobertura, mas que estabeleceu o caminho para o acesso a cuidados de saúde públicos como um direito de qualquer americano, algo que se julgava impossível nos EUA.

A nível doméstico, Obama conseguiu atingir outros grandes objectivos. Conseguiu atacar de frente a Crise do Subprime de 2008, introduzindo pacotes de estímulo à economia e aumentando a regulamentação de Wall Street. As questões ambientais foram também um grande foco de Obama durante a sua presidência, nomeadamente no estabelecimento dos Acordos de Paris, bem como a implementação de reformas no sistema de ensino americano. Para além disso, Obama aboliu a lei “Don’t Ask, Don’t Tell”, que proibia homossexuais de servir no Exército Americano, e apontou duas das quatro mulheres Juízas do Supremo Tribunal, que votaram a favor da legalização do casamento homossexual, o que representa um enorme passo em frente na imagem da América mais tolerante e mais progressista.

Depois temos a questão da raça. Se aqui em Portugal nos podemos orgulhar de viver num país socialmente mais avançado e compreensivo, onde a discriminação racial não é tolerada, há que compreender que nos EUA o panorama é bastante diferente. Os EUA são um verdadeiro melting pot. São um país que durante toda a sua história teve de aprender a lidar com uma diversidade cultural muito grande, onde a história de tensões entre indivíduos de raças diferentes está ainda bem fresca nas memórias dos seus habitantes. Na verdade, muita da história americana corresponde também à própria história das relações entre raças, por isso é normal que Barack Obama tenha uma enorme simbologia enquanto primeiro presidente afro-americano.

Por último, Obama foi também crucial na política internacional americana. Diplomaticamente, a postura de Obama sempre foi de tolerância e cooperação, até com países com os quais os EUA têm uma animosidade histórica. Basta ver-se os seus dois grandes feitos: colocou um fim ao embargo com Cuba, que durava há mais de 50 anos, abrindo as portas à troca comercial com o país, e estabeleceu o Acordo Nuclear com o Irão, que terá um impacto determinante nas relações mundiais entre países nos próximos 10 anos.

Se Obama foi o Presidente perfeito? Claro que não. Sem pensar muito, consigo-me lembrar de dois ou três assuntos onde foi desastroso - por exemplo, não conseguiu fechar Guantanamo e ignorou a política monetária da Fed. Mas se pensarmos que Barack Obama: 1) viveu a fase mais polarizada da política americana, onde é praticamente impossível Democratas e Republicanos comprometerem – veja-se estas eleições lamentáveis, por exemplo – 2) governa com um Congresso Republicano desde 2010, que sempre esteve dedicado a bloquear tudo o que vinha da Presidência e 3) conseguiu ainda assim atingir tudo isto, então ficamos a pensar o que conseguiria fazer num panorama político normal.


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