Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Analógico num mundo digital

Às vezes dou por mim a pensar o que seria viver há 50 anos. Não com aquele saudosismo clássico de quem recorda, porque há 50 anos ainda não tinha nada para recordar. Um dos pensamentos que gosto de explorar é a fotografia. As minhas capacidades fotográficas são extremamente limitadas, para não dizer nulas. Resumem-se apenas a tirar um Iphone do bolso e fotografar vinte fotografias diferentes do mesmo momento, na esperança que uma fique bem (Spoiler: raramente acontece). No entanto, não é por isso que escrevo este texto, escrevo-o para mostrar como, se calhar, a fotografia é a analogia perfeita para o que se tem passado.

Há 50 anos, ou aliás, basta recuar até quando eu era pequenino, uma fotografia era preciosa, havia um rolo limitado, assim cada uma era tirada com um carinho especial e representava algo que de facto merecia ser recordado. Uma fotografia com um amigo chegado, uma fotografia da primeira vez que um filho andou, uma fotografia de uma viagem. A recente promiscuidade fotográfica dá por nós a perder o filtro daquilo que vale a pena recordar, tudo merece ser recordado. Até a porcaria de um scone que não era assim tão bom, algures num restaurantezeco em Lisboa. Pior, pode chegar ao extremo de não querermos o momento, mas apenas a fotografia. Os momentos bons deixam de parecer tão bons, e os momentos maus deixam de parecer tão maus. Os momentos passam somente a momentos, sem um significado emocional subjacente. Com o tempo, criamos uma espécie de tolerância à unicidade do instante, porque quando damos importância a tudo, tudo deixa de ser importante. A vida deixa de ser constituída por picos e vales, para se tornar numa planície aborrecida.

Creio que quer queiramos, quer não, o Homem é um ser analógico. Não estamos feitos para querer tirar uma fotografia a todo o momento que vivemos, tanto que nos esquecemos de o apreciar. A maravilha da vida é ser nossa e nossa apenas, e que, para ser vivida merece ser apreciada, além de que um pouco fotografada. A fotografia é algo realmente único, é um momento congelado no tempo, mas, como tudo, ao ser banalizado perde o valor. Possivelmente, apesar de na minha opinião ser pouco provável, o Homem um dia conseguirá ser um animal digital, viver relações unicamente digitais, viver em realidades virtuais sem sair do sofá e ter experiências que não fossem possíveis de outra maneira. Um enorme medo que tenho. Apesar disto, guardo uma esperança de que não se venha a materializar, vejo isso quando se observam cada vez mais pessoas a comprar vinyls e a não aderir aos e-books.

O toque, o estar, o realmente experimentar é ainda algo irreprodutível. Vejo o mundo digital como a imaginação, algo porreiro, que podemos visitar de tempos a tempos, mas se engolidos, acabamos por viver uma vida que não nos pertence. Presos numa pseudo-realidade, que apesar de muito mais cómoda, porque, sem dúvida que o é, é também menos real e assim carece de valor. Neste nosso alter-ego digital podemos ser o que quisermos. O mundo digital, no fundo, acaba por ser um refúgio para o ego. A vida é analógica, o resto é apenas uma distracção de quem quer fugir, um hit de um drogado de dopamina, um soma de Huxley. Ao banalizar a fotografia, banalizamos também o seu substrato, a nossa vida.


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