Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Amuletos e resquícios da memória

Olho para esta moeda que tenho à minha frente, costumo vê-la todos os dias, já faz parte da minha rotina matinal. Não é nada de especial, uma moeda perfeitamente banal, um pouco desgastada, mas só isso. São 5 forints húngaros, costumam andar sempre comigo na carteira, desde há uns meses para cá. Comecei a pensar o que seria se esta moeda pudesse falar, tenho tanta pena que as coisas não falem, podia-me contar as mãos pelas quais tinha passado e as histórias, imensas acredito, que tinha ouvido sobre a forma de sussurros, nas mais diversas línguas, quando andava escondida com as outras moedas. Quem sabe se já não andou acompanhada por alguém importante. Quem sabe se não ouviu uma declaração de amor ou a ruína de uma família. Depois da memória para a qual me transporta, esta moedinha tem a mania de me começar a puxar pela imaginação. Agora sou eu o dono dela, e, se calhar, por obra do destino e com a minha total contrariedade, nos iremos separar, não quero ela vá a lado nenhum. E se a perder, gostava de um follow-up para saber como ela está, como se grandes amigos separados pelas vicissitudes da vida nos tratássemos.

Antigamente, as moedas tinham valor intrínseco do material de que eram feitas, atualmente umas tem e outras não. Um valor intrínseco não material, porque duvido muito de que seja o único que dê um significado a uma, não sou especial. Quem fala em moedas, podia falar noutra coisa qualquer, podia falar num livro, numa fotografia, num bilhete de comboio ou até de um berlinde. O materialismo é uma porra, mas deixa de o ser quando qualquer objecto nos consegue transportar para uma certa hora e um certo lugar, ou lembrar-nos uma certa pessoa. Acho que é precisamente para isso que eles servem, para nos recordar daquilo que está há muito esquecido ou para nos proibir de esquecer algo. Uns vão alegar que as coisas que realmente merecem ser lembradas não precisam de um objecto para tal. Não concordo, as situações mais marcantes muitas vezes passam-nos despercebidas e são enviadas, ou melhor, enterradas, para o subconsciente. Mesmo boas memórias, motivos de grande alegria, começam a ser soterradas pelo quotidiano. Não posso deixar que tal me aconteça, porque se sou alguma coisa, sou as minhas memórias.

Assim compete aos objetos, de tempos a tempos, avivar-nos a memória, para nos fazer acreditar de novo que somos humanos, porque sentimos. A moeda é para mim a madalena de Proust. A minha humanidade reside nesta moeda, um pensamento um bocado estranho, de facto. “O passado nunca sabe o seu lugar, está sempre presente”, disse-me uma vez um grande amigo meu, sabendo ou não que a frase pertencia a Mário Quintana, um poeta brasileiro, mas não podia concordar mais. No entanto, é, precisamente o passado, que nos ensina a olhar para o presente e para o futuro com outros olhos, é o grande professor da vida.

Irei continuar a olhar para esta moeda, dada por ti, através de uma máquina de café e com o teu total desconhecimento, como um talismã, como um objecto da tua representação e do teu significado, porque as memórias, essas ninguém me consegue tirar.

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