Afonso Delgado Gonçalves


Faculdade de Medicina, UL

"Words can be like x-rays if you use them properly — they’ll go through anything. You read and you’re pierced."
- Aldous Huxley

Alienado

No outro dia, na portaria do meu prédio, fui abordado por um vizinho que é esquizofrénico, tem os seus trinta anos e é altamente medicado. Como de costume acabou por me fazer uma pergunta engraçada. Passo por ele muitas vezes enquanto fuma, ouvindo sempre um : “ Como está, senhor doutor ?”. Apesar de ainda não o ser e já lho ter dito, ele continua com a brincadeira. Diz-me sempre que hei de ser o seu médico. Normalmente, dá para perceber quando está mais ou menos compensado, e neste dia pareceu-me um pouco menos do que é costume. Falar com um doente esquizofrénico é sempre algo engraçadíssimo, nunca é nada aborrecido. Desta vez não foi exceção.

-Anunnaki, Essassani, Arcturians ou Pleiadeans? Qual destes acha que existe ?- disse-me ele enquanto contava com os dedos de maneira a ter a certeza que não se esquecia de nenhum.

Eu como não percebi nada do que ele disse, limitei-me a rir e a perguntar o que é que ele queria dizer com aquilo. Ele explicou-me e a minha reação foi um misto de constrangimento e curiosidade, percebendo o que ia advir dali. Durante dez minutos discutimos sobre o assunto, estando ele muito certo de que de facto existe vida extraterrestre. Para ele a equação de Drake era um dogma. Cheguei à conclusão que pareciam os devaneios típicos de um homem que não estava com a sanidade intacta e que vivia um pouco no seu mundo imaginário. Justifiquei a conversa com a doença.

No entanto, levou-me a pensar se de facto estaríamos sozinhos no Universo. Mais uma daquelas questões existenciais, para qual obviamente ninguém tem resposta, mas que sobre a qual tem piada refletir. Nunca pensei muito no assunto, para ser sincero. O meu “conhecimento” sobre o tópico estava limitado aos acontecimentos de Roswell, ao paradoxo de Fermi, ao tipo maluco do Canal de História e às teorias do “Interstellar”.

Acabei por ficar imerso numa quantidade absurda de teorias da conspiração. Algumas, inclusive, que defendem a presença de extraterrestres entre nós, em comunidades próprias. Da próxima vez que passei por ele, dei-lhe um papel e uma caneta e pedi-lhe para me escrever os nomes dos extraterrestres que me tinha referido, para os poder pesquisar. Não havendo factos concretos, percebi que toda a argumentação se baseava em testemunhos como o de Paul Hellyer, um ex-ministro da defesa canadiano, que veio a público em 2013 afirmar que existiam extraterrestres a trabalhar para o governo americano , já tendo antes acusado George W. Bush de preparar uma guerra intergaláctica.

Por outro lado, a Carl Sagan, apresentador do “Cosmos” original, que foi a representação da ciência para uma geração, perguntavam-lhe frequentemente sobre o assunto.

“I'm frequently asked, "Do you believe there's extraterrestrial intelligence?" I give the standard arguments- there are a lot of places out there, the molecules of life are everywhere, I use the word billions, and so on. Then I say it would be astonishing to me if there weren't extraterrestrial intelligence, but of course there is as yet no compelling evidence for it. Often, I'm asked next, "What do you really think?" I say, "I just told you what I really think." "Yes, but what's your gut feeling?" But I try not to think with my gut. If I'm serious about understanding the world, thinking with anything besides my brain, as tempting as that might be, is likely to get me into trouble. Really, it's okay to reserve judgment until the evidence is in.”

A NASA, à semelhança de Sagan, não refuta a hipótese tendo em conta a vastidão do universo, mas até hoje, segundo eles, não houve contacto com qualquer tipo de espécie extraterrestre.

Parece-me mais plausível a visão de Sagan do que o do outro que diz que o Bush andou a brincar ao “Star Wars”. Pode ser que um dia um alien me venha bater à porta.


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