António Araújo


Faculdade de Direito, UL

"Those who stand for nothing fall for anything."
- Alexander Hamilton

A primavera catalã

O brilhante Neruda deixou-nos, em tempos diferentes, a frase mais bonita que conheço sobre a democracia: “Podem cortar todas as flores, mas não podem deter a primavera”. Nessa frase encontrava-se o segredo, a essência da democracia: o de que ela não pode ser derrotada, espezinhada ou destruída pela violência; o de que só a democracia vence a democracia.

A violência policial desproporcionada e indiscriminada não é mais do que a pura ausência de razão, e nisso reside o iminente fracasso da democracia espanhola. Quando muitos catalães poderiam, antes das últimas semanas, optar ainda por uma unidade nacional que, sendo evidentemente complexa e complicada, não deixa de ser um dos mais desafiantes e bem sucedidos projetos políticos da Europa do século XX, agora tudo isso se reduz a nada. Porque a violência não é apenas um expediente para se evitar um referendo. É abdicar de toda a razão, toda a legitimidade, toda a esperança. É o que faz de um cético pró-espanhol como eu um apoiante genuíno deste referendo. É o que me leva a dizer que a independência da Catalunha é, hoje, um facto incontornável.

Não tenho dúvidas de que os tradicionais argumentos da independência são plenamente irracionais (aquela máxima de que em Barcelona se ganha dinheiro e em Madrid se gasta, por exemplo), de que o Governo catalão agiu da pior maneira, de que o referendo de ontem era ilegítimo e inconstitucional, de que Catalunha e Espanha estão melhor em conjunto, de que a independência catalã acarreta ameaças secessionistas e tensões nacionalistas que se julgavam erradicadas nesta parte do mundo. Todas estas afirmações ficam reduzidas a nada, todavia, face às indescritíveis imagens do dia de ontem, acompanhadas pela ausência de apoio em todo o mundo, pelo silêncio da comunicação social, pelos desumanos suspiros de vitória em Madrid.

Ao contrário do que aparece em muitos jornais, não me parece que ontem tenha sido apenas um primeiro ‘round’ (PÚBLICO) entre Madrid e Catalunha. O dia de ontem foi mais importante do que isso. Ao usar da violência, Madrid assumiu uma postura de “somos nós contra eles”. Assumiu que a Catalunha não faz parte do projeto político de Espanha. Reforçou – consolidou, até – o sentimento de tantos catalães que se veem presos a um Estado que não é o seu.

Porque só a democracia vence a democracia, a democracia espanhola foi a grande derrotada de ontem. Na violência “serena” que se abateu ontem sobre a Catalunha jaz o fim da unidade de Espanha e o início do processo de independência catalão. Fazendo uso das palavras do brilhante Neruda: podem usar de toda a violência, mas não podem deter a democracia.

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