António Araújo


Faculdade de Direito, UL

"Those who stand for nothing fall for anything."
- Alexander Hamilton

A política da esperança

O ano que agora termina passou num instante. A quantidade de acontecimentos negativos que 2016 trouxe não deixou tempo para pensar. Como um choque que deixa um trauma que a mente tenta, por tudo, ignorar.

Começou na ressaca do pior que tinha havido em 2015: os mortos no Bataclan e o pequeno Alan Kurdi numa praia do Mediterrâneo. Acaba, entre todo o resto, com um cenário indescritível: Alepo, as crianças desfiguradas, os hospitais destruídos, os milhares a morrer de fome e um Ocidente tentando, novamente, ignorar.

Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Itália, o liberalismo cedeu estrondosamente perante o populismo. Por culpa, sobretudo, do próprio liberalismo, que falhou para com muitos dos seus cidadãos, arrastando-os para um cesto de "deploráveis".

Falo do liberalismo no seu sentido original, o da democracia liberal e social. Falo do falhanço em que a "política da esperança", de que falava Schlesinger Jr. a propósito de Jack Kennedy, deu lugar a uma governação dominada pelo medo. Em que os próprios radicalismos se tornaram fonte de esperança ("Make America great again", "Vote Leave: let's take back control"), enquanto o liberalismo se refugiou na incompetência e no insulto, no fatalismo e no medo.

Suficiente seria para inaugurarmos o fim da política, como lhe chamou a revista Foreign Policy. Ou pelo menos o início da "post-truth politics" descrito no Economist. E para cairmos na desilusão e na anomia.

Mas aqui chegamos ao ponto onde nem tudo correu mal: Portugal.

Tivemos Guterres e tivemos o Euro - dois acontecimentos que ficarão guardados na nossa memória enquanto pontos altos da nossa História coletiva.

Sobretudo, tivemos um Governo que devolveu a política ao nosso país e um Presidente que nos deu a esperança.

Um Governo que provou que a política à la Schäuble não era inevitável e que existem respostas alternativas, essência da democracia que os últimos anos tinham apagado. Governo que deu conta, por outro lado, de que sem a Europa mudar nós também não mudamos. E que o imobilismo e a ortodoxia de Bruxelas são a principal razão de não seguirmos em frente.

E um Presidente que curou feridas e trouxe ânimos, numa Presidência motivada não por politiquices ou por artimanhas, mas por aquilo a que ele próprio nos disse serem "afetos", a mão de um líder estendida a todos e mostrando que todos, da praia de Cascais às ruas da Cova da Moura, são centro de atenção e motivo de admiração por parte de um Estado que é de todos nós. No dizer de Marcelo Rebelo de Sousa, "Preferindo os pequenos gestos que aproximam às grandes proclamações que afastam".

Na nossa pequena escala, juntámos a política e a esperança para retomarmos essa política da esperança, esse espírito genuíno de preocupação com o outro, de responsabilidade coletiva, de não nos fecharmos em nós mesmos mas tentarmos melhorar o mundo à nossa volta. De fazermos política e não nos rendermos ao medo. De ansiarmos por melhores tempos, e lutarmos por eles.

2017 será difícil, como 2016 também foi. Na amargura dos dias que correm, permanece o essencial: a esperança no futuro e a vontade de mudar o mundo.

Isso não podemos perder. Nunca.


1 comentários

  1. Um texto cheio de nada, de novidades, falo ou escrevo. Como preferir. Umas tantas de excertos de uns tantos escritos popularescos, sarrabiscadoa em qualquer jornal ou blog. Quando mais tarde recordar se valer a pena recordar, vai chegar à conclusão que e

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