José Mª Gonçalves Pereira


Faculdade de Direito, UL

"Life is like a rollercoaster. It has ups and downs. But it is your choice to scream or enjoy the ride."
- Unknown

A insustentável prisão da razão

Acordo. Deprimido, aceito que o digam. Arrasto-me, (quase) literalmente, para uma secretária que materializa o que de mim esperam: que enfrente uma pilha de livros. Que devore centenas de capítulos, milhares de páginas e milhões de palavras. Que chegue ao exame e as despeje. Encaro essas duas horas como a derradeira prova de vida.

De um lado, o sucesso. Um sucesso aqui concebido de uma forma profundamente desoladora: um sucesso entendido como a pertença a uma super-estrutura influente, onde defendo quem no fundo não merece ser defendido, onde visto um fato e uso um relógio cujo preço permitia alimentar centenas de crianças durante um ano, e em que moro numa casa (certamente uma obra-prima da arquitetura) assustadoramente desconfortável, cujo tamanho avassalador justifico pela necessidade de ter sítio onde enfiar os milhares de milhões de páginas que a vida que escolhi me impôs. Ou um sucesso em que me aliciaram a que lesse mais alguns milhares de páginas, para que pudesse eu próprio escrever os meus milhares de páginas sobre uma assunto relativamente irrelevante, dando-lhes um título pomposo e obrigando algum desgraçado a acordar e arrastar-se para a secretária para as enfrentar.

Correndo o exame mal, o insucesso. Se o sucesso acima descrito já não era animador, o insucesso ainda mais destruidor é. Arrastei-me para a secretária e devorei as páginas. Percebi pouco. Era um conjunto de nuances com fronteiras pouco discerníveis. Não soube discernir no exame essas nuances. Passei por aquelas 4 paredes sem ninguém dar por mim. Ninguém me alicia para coisa nenhuma. Tenho de andar à caça de sustento. Se a perspetiva do sucesso já era incompatível com a de felicidade, a do insucesso ainda mais o é. Não tenho a casa absurda e o meu carro não passa os 200km/h. Que inferno.

Chego à secretária. Acordei há 10 segundos e já tenho a vida inevitavelmente destruída. É legítimo que concluam que sou doido. Não no bom sentido. Nesse, seria certamente feliz. Sento-me. Estou perfeitamente ciente de que os dois cenários traçados são não só redutores, como pouco verosímeis. E o estar ciente disso prova que não estou doido. São dois cenários em que concebi a vida de uma forma dramaticamente racional. Um encadeamento de relações causa-efeito, que num caso culmina numa mão cheia de nada, e noutro num puro nada. Tanto a perspetiva do sucesso como a do insucesso conduzem ao insucesso. Porquê? Porque as concebi de uma forma puramente racional. Porque me desumanizei e desconsiderei o que de mais humano há: o sentimento. Estamos habituados a olhar o ser humano como tendo como característica distintiva a Razão. Não podia discordar mais. O que distingue o Homem é a capacidade de sentir. A Razão mais não é do que uma prisão. A prisão da procura de uma causa de tudo pelo método empírico. E o mais curioso é que é a Razão que me aponta que é ela própria uma prisão. É ela própria que me aponta que se quero ser feliz, é dela que me devo libertar parcialmente.

Não me interpretem mal. Ou interpretem, tanto se me dá. O Homem não pode ser dominantemente racional. Quem viveu a vida à procura dos motivos explicativos de todo e qualquer acaso, não a viveu verdadeiramente. Libertemo-nos da arrogância da pretensão de que toda a explicação da nossa existência está ao nosso alcance. Não está. Entreguemo-nos à verdadeira essência da nossa existência, que não passa daquilo que não podemos empiricamente explicar. Não são precisas grandes ruturas, não é preciso desviar o caminho. Apenas valorizar cada pequena coisa que a Razão nos mandaria desconsiderar.

Acordo. Apaixono-me pela luz do Sol. Deixo a brisa fresca limpar-me a alma, respiro. Leio a mensagem que vale por si só o dia. Respondo, esperando que a resposta valha por si só o dia. E sento-me à secretária: há um futuro por construir. Um dos acima descritos? Talvez. Mas vivido.

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