Francisco Reis


Faculdade de Direito, UL

"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes."
- Ricardo Reis

A Demagogia, o inimigo da Democracia

A democracia enquanto valor é essencial, é basilar, é um corolário da liberdade e da igualdade. Enquanto regime, é frágil. É frágil, porque a abertura e a tolerância que pressupõe implica vulnerabilidade, vulnerabilidade aos demagogos, aos intolerantes, aos populistas, aos que a vêem como algo de instrumental e procuram destruí-la por dentro. Cabe a cada um dos cidadãos e à comunidade política em geral defendê-la de tal ameaça. Para tal, convém antes do mais identificá-la: O que é afinal um demagogo? Onde é que ele anda? Qual o seu veneno?

O demagogo é aquele que age politicamente com o propósito de agradar, que não acredita realmente naquilo que defende, naquilo que propõe, argumenta não com base na convicção da validade dos seus argumentos e na veracidade das suas premissas, mas sim na popularidade e alcance da tese . O demagogo é aquele que propõe respostas simplistas para problemas complexos. Além do mais, as suas propostas, o seu projecto, pressupõe um inimigo, um alvo fácil(seja o emigrante, o muçulmano ou o capitalista). Isto, porque como dizia Hayek: "Quase parece uma lei da natureza humana o facto de ser mais fácil as pessoas concordarem com um programa negativo - em odiarem um inimigo, em invejarem os mais ricos - do que se porem de acordo sobre uma tarefa positiva". De facto, o demagogo é perito em explorar os sentimentos do seu auditório, tem de o ser, pois as suas respostas fáceis dificilmente passariam no teste da razão. Mas ele não se limita a apelar aos sentimentos, apela em particular aos sentimentos negativos, ao ódio, à inveja, à fúria, à raiva. Daí a importância de delinear um inimigo. O demagogo percebeu o potencial activo da agressividade.

O demagogo assemelha-se àqueles que organizam lutas de cães. O demagogo atiça, espicaça as feras aprisionadas, coloca-lhes um inimigo à frente e depois, quando estas estão prestes a atacar, solta-as, mas não sem antes lhes pedir o voto. O voto é o preço a pagar pelo abrir da jaula. Como se nota o demagogo não é apenas um inimigo da democracia, é também um inimigo da estabilidade social, da paz, da coexistência, da coabitação e da fraternidade, o demagogo sabe soltar a fera, mas não sabe, nem tenta, nem quer controlá-la. Saca-lhe o voto e depois deixa-a deriva por um caminho de ódio e luta. O demagogo extrema o discurso, extrema os debates, combate os consensos. O demagogo é o principal fã e adepto da lógica do tudo ou nada. O cinzento é difícil de explicar, tem muitos tons, já o branco e o preto são mais fáceis, ou é um ou é outro.

Mas além do mais, o demagogo é irresponsável. Não apenas porque muitas vezes as suas propostas são altamente inconcretizáveis, utópicas, irrealistas e condenadas ao fracasso, mas sobretudo porque a sua mensagem de ódio gera o tumulto, gera a revolta, gera a discórdia, gera a destruição e promove a violência.

Como combater o demagogo? Combater o demagogo passa por combater o seu veículo, isto é, combater a ignorância. Quanto mais bem informado for o público mais impermeável será às fantasias incoerentes do demagogo. O primeiro campo de combate é pois a educação, mas não é o único. Os meios de comunicação também podem dar um importante contributo, para tal será necessário que sejam sérios e imparciais na forma como publicam as notícias e ainda que consigam chegar ao público em geral, que lhe consigam apresentar os factos de forma clara, contrariando assim a confusão e a incompreensão que o demagogo tão bem sabe aproveitar.

Por razões de extensão deixo para uma futura rúbrica a análise de um caso particularmente gritante e extremo de demagogia, um caso infelizmente actual: o caso Donald Trump.


2 comentários

  1. Grande verdade! Não diria melhor, a demagogia é tudo isso e muito mais, é o grande cancro de uma sociedade democrática e aberta! Trump é, sem dúvida, o exemplo perfeito...

  2. Muito forte Sr. Reis!

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