Salvador Luz


Faculdade de Direito, UL

"Those who dare to fail miserably can achieve greatly."
- John F. Kennedy

2015 em perspetiva ... O que esperar de 2016

Muito aconteceu em 2015. Através do olhar dos media, dir-se-ia, muito de negativo. A primeira palavra que vem à cabeça será, provavelmente, o terrorismo: o ataque ao Charlie Hebdo, o tiroteio em Sousse, na Tunísia, o massacre do 13 de novembro em Paris, a queda do avião russo no Egito, o avançar do Estado Islâmico.

A fragilização da coesão da construção europeia, exacerbada pela fragmentada gestão da crise dos refugiados, foi uma vez mais, evidenciada. Políticos eurocéticos, tais como Nigel Farage e Marine Le Pen, acusados por muitos de populismo, gozam de uma cada vez maior base de apoio. Do outro lado do Atlântico, a candidatura de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, marcada pelo seu estilo populista, teatral e simplista no que toca à resolução de problemas, tem também tido resultados, gozando o empresário multimilionário de uma considerável vantagem sobre os restantes candidatos republicanos.

Em Portugal, a detenção de um ex-primeiro-ministro ainda em 2014, acoplada à queda do outrora mais reputado banqueiro nacional chocaram a opinião pública pelo elevado grau de profundidade que as raízes da corrupção parecem ter no nosso país. (Sublinhe-se, no entanto, o facto de ainda não ter sido deduzida acusação em nenhum processo.) De todo o modo, houve também alguma surpresa pelo aparente fechar de um ciclo ou de um clima de impunidade que se fazia sentir há já largos anos.

Em termos de política interna, findo o período da austeridade, o elevado grau de abstenção nas últimas eleições legislativas não consubstanciou propriamente o início de um ciclo de confiança renovada no processo político. A queda do governo saído vitorioso das eleições provocada pela emergência de uma maioria parlamentar negativa suscitou também determinadas dúvidas de legitimidade e confiança.

Contudo, alguns acontecimentos positivos tiveram lugar. Os Estados Unidos reestabeleceram relações diplomáticas com Cuba após 54 anos de esfriamento, o grupo de países conhecidos por P5+1 chegou finalmente a acordo com o Irão sobre o seu programa nuclear, e a conferência das Nações Unidas sobre o clima deu origem a um ambicioso acordo de proteção ambiental, pela primeira vez de âmbito universal.

Em termos de ciência, são de destacar a descoberta de água em Marte, a chegada da sonda espacial Rosetta ao cometa 67P e a aproximação da sonda New Horizons a Plutão, tendo esta já viajado cerca de 5 biliões de quilómetros desde que deixou a Terra e produzido imagens inéditas do planeta anão.

Perante tudo isto, o que esperar de 2016?

Prever ou antecipar acontecimentos constitui sempre um risco. No entanto, podemos começar pelos acontecimentos mais certos de ocorrer. A 24 de Janeiro, Portugal elegerá um novo Presidente da República. A escolha parece recair maioritariamente sobre Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Marcelo Rebelo de Sousa, sendo este último visto como detentor de uma considerável vantagem sobre os demais, por motivos conhecidos e evidentes. Marcelo, presença habitual na televisão portuguesa nos últimos 15 anos, não é apenas uma cara familiar para os portugueses. É também visto como um homem inteligente, astuto (talvez demais), racional e pragmático, tendo, porém, demonstrado ter sensibilidade suficiente para construir pontes e criar compromissos, características cruciais para o papel de moderador que o Presidente da República tem no sistema político português.

Em agosto, o Brasil irá acolher os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro. Existe alguma apreensão face à instabilidade da situação política que se vive no país, estando a Presidente Dilma Rousseff atualmente a lidar com um processo de impeachment cujo resultado é imprevisível, deparando-se simultaneamente com níveis recorde de impopularidade.

De grande relevância, a 8 de novembro terão lugar as eleições presidenciais americanas, sendo que Hillary Clinton e Donald Trump são vistos como os mais fortes candidatos de ambos os lados do espectro político. O resultado destas eleições será determinante na luta contra o terrorismo, na resolução da situação do Médio Oriente e no desenrolar da atual situação de tensão renovada entre o Ocidente e a Rússia. Hillary Clinton parece ter mais hipóteses. Antiga Primeira-Dama, Senadora e Secretária de Estado, Hillary traz consigo uma bagagem política invejável e experiência no terreno e na lide com os assuntos de Estado que poucos possuem. Trump, por outro lado, tem uma experiência política inexistente e, apesar de popular, parece ter perdido o apoio por parte da liderança do seu partido.

Também é mais ou menos expectável o fim do "easy money", com a decisão da Reserva Federal Americana de subir as taxas de juro. Os estímulos que se faziam sentir para minorar os efeitos da crise de 2008 parecem estar a chegar ao fim.

Analisemos agora algumas das maiores incógnitas que se avizinham.

Apesar de recentes sucessos por parte da coligação militar liderada pelos EUA, a derrota do EI é ainda uma incógnita. Tendo Ramadi, uma cidade-chave na estrutura do EI, sido já recentemente conquistada pela coligação, muitos apontam a eventual tomada de Mosul como derrota definitiva do EI. Mas significaria essa derrota igualmente o fim do terrorismo? Muitos acreditam que não, e que outros grupos e organizações se sucederiam. A questão parece mais ser geopolítica e ideológica do que militar.

Por outro lado, as ameaças terroristas na Europa têm ocorrido a um nível sem precedentes, estando o continente, em geral, num elevado grau de alerta. Muitos analistas apontam Berlim como próximo alvo provável o que, se vier a acontecer, pode ter consequências importantes, nomeadamente, o fortalecimento de forças nacionalistas de extrema-direita.

O temido "Brexit", a saída do Reino Unido da União Europeia, é também uma possibilidade cada vez mais presente, tendo David Cameron prometido ao eleitorado britânico um referendo até ao final do ano de 2017. A acontecer este ano, poderá ser mais um fator de fragmentação do projeto europeu, suscetível de desencadear um efeito dominó noutros países, como em França, por exemplo, onde o "Front National" parece obter cada vez maior expressão eleitoral.

Já em Portugal, a grande incógnita parece ser a sobrevivência do governo de António Costa, sobrevivência esta em grande parte dependente tanto da vontade do futuro Presidente da República como do sucesso do modelo económico que propôs, com enfoque no aumento da procura e uma aposta no consequente crescimento económico do país.

Levando tudo em consideração, 2016 parece vir a ser um ano determinante, decisivo. Como é claro, todos os anos parecem determinantes para aqueles que neles vivem e de cujos acontecimentos as suas vidas dependem. Mas vale a pena recordar que os anos estão inseridos em décadas e que estas estão, por sua vez, inseridas em grandes tendências e forças que poucos podem controlar ou prever. Esperemos, atentamente, e observemos juntos o que 2016 nos reserva.


2 comentários

  1. Texto espetacular! Simples claro e objetivo, e nem por isso deixa de tocar em todos os pontos essenciais. Também estou em Direito, espero um dia conseguir escrever assim

  2. Texto muito interessante e informativo, gostei do estilo síntese e da articulação das diferentes questões, todas elas relevantes. Bom trabalho!

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